Ascetismo - Ascético - Ascese Significado

Ascetismo

Significado: A ascese é a prática da renúncia ao prazer ou mesmo a não satisfação de algumas necessidades primárias / é um processo de santificação pessoal / mortificação / Ascese cristã é o esforço que fazemos para domínarmos os nossos sentidos, corrigirmos as nossas más tendências e vivermos um processo de libertação interior. A Igreja propõe aos fiéis como algumas das práticas ascéticas, o jejum e a abstinência, penitenciais, Louvor, Adoração ao Senhor.

Ascetismo e Cristianismo

A prática do jejum/mortificações, sempre foi uma forte arma de ascese, de penitência e de combate espiritual na história da salvação. Deus quis remir o homem, exigindo ao mesmo tempo que a sua justiça fosse dignamente satisfeita mediante uma expiação infinita por parte do Verbo humanado. Esta expiação divina, porém, não dispensava, mas apenas tornava possível a expiação por parte do homem, precisamente através dos sofrimentos provenientes da desordem decorrida do pecado. Unicamente deste modo o homem era redimido, unicamente através da justiça se manifestava a misericórdia de Deus. Antes, quis Deus que fosse juntamente realizada a sua maior glória e o maior bem do homem, através do sacrifício mais completo por parte de Cristo, bem como por parte do homem, dada sempre a desordem das coisas, proveniente do pecado.

Esta - tão significativa - praxe ascética tem a sua primeira e perfeita realização em Cristo, redentor pela cruz. Tornando-se ele, deste modo, o modelo e o ideal da vida cristã. Mas, para o mundo, esta praxe ascética será loucura e escândalo. Os Gentios julgavam naturalmente loucura a renúncia cristã. Os próprios israelitas sonhavam o Redentor cercado de grandeza e poder, e não de humildade e sofrimento. Cristo, ao contrário, menosprezando a prudência e a fortaleza humanas, envereda pelo caminho da cruz, que repugna à natureza, mas já é a única via de salvação e de santificação. E, assim, Cristo - realizando a sua obra - foi julgado justo, mas não lhe foi feita justiça pela majestade do direito; foi condenado pelo povo que ele viera remir; foi abandonado pelos próprios e mais chegados discípulos. E morreu abandonado sobre a cruz, assistido por algumas pobres mulheres. Humanamente e também racionalmente falando, unicamente desta maneira se realizava a glória de Deus e a redenção do homem em toda a sua plenitude.

Cristo não apenas realizou na sua pessoa o sacrifício redentor, mas também apontou aos homens este caminho como sendo o caminho único para a salvação e a perfeição, e confirmou a doutrina com o exemplo, propondo-se como modelo de todos os cristãos: Eu sou o caminho, a verdade e a vida. A vida cristã será, portanto, a imitação de Cristo crucificado - diversamente embora, segundo os graus de perfeição cristã e as concretas diferenças individuais. Tal ensinamento ascético de Cristo - que, em concreto, se acha em toda a sua vida e, em especial, na sua morte - em abstrato se acha em toda a sua doutrina, mas especialmente no sermão da montanha, o sermão das bem-aventuranças, que se pode considerar o compêndio do espírito do Cristianismo. Aí são invertidos os valores terrenos, e exaltados não os ricos, os gozadores, os poderosos, que o mundo inveja, mas os pobres, os sofredores, os mesquinhos, conforme a sabedoria cristã, o que à orgulhosa razão humana parece estultícia. Deste modo Cristo dirá que o busquemos - isto é, que procuremos a sua imagem, a sua imitação - não no homem feliz, para gozarmos a vida em sua companhia, mas no homem sofredor, com o qual e para o qual sofremos e, destarte, acharemos alimento ascético.

Este ensinamento, Cristo dirige a todos os seus seguidores, como condição necessária para a salvação - se alguém quer vir após mim, renuncia-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Entretanto, aos que aspiram à santidade, à plenitude da vida cristã, à perfeita imitação dele, impõe Cristo a renúncia total aos grandes bens do mundo: renúncia à riqueza, à família, à liberdade, para abraçar a pobreza, a castidade, a obediência. E esta a chamada via dos conselhos evangélicos, em contraposição com a vida comum dos preceitos. E realiza-se na clássica praxe cristã dos votos religiosos, sempre idêntica e imutável na substância, embora variável nas aplicações concretas.

A ascética é uma disciplina de vida que leva à efetiva realização da virtude, à plenitude da vida moral. É o caminho para uma grande espiritualidade. Busca da purificação interior por meio de uma austeridade equilibrada e uma rigorosa renúncia ao prazer pelo prazer, refreando com decisão os impulsos meramente terrenos. Trata-se do hábito de se preescindir das paixões. Eis porque São Paulo aconselhou: “Mortificai, vossos corpos” (Cl 3,5). Nem sempre a conduta humana é racional e boa e a busca dos valores exige o exercício da vontade. A mortificação cristã tem por fim neutralizar as influências malignas que o pecado original ainda exerce nas almas, inclusive depois que o batismo as regenerou. Nossa regeneração em Cristo, ainda que tenha apagado a mancha do pecado em nós, nos deixa, sem embargo, muito longe da retidão e da paz originais. O Concílio de Trento reconhece que a concupiscência, ou seja, o tríplice apetite da carne, dos olhos e do orgulho, se deixa sentir em nós, inclusive depois do batismo, afim de excitar-nos às gloriosas lutas da vida cristã. Até os pagãos percebiam esta dicotomia interior do homem e o poeta Ovídio, por exemplo, assim se expressou: “Enxergo as coisas boas e as aprovo: sigo, porém, as piores”. Lemos no Livro de Jó: “A vida do homem sobre a terra é uma contínua luta” (Jó 7,1). O Apóstolo explicou bem isto: “A carne pugna contra o espírito e o espírito contra a carne” (Gl 5,17).

Cumpre então mortificar os apetites desordenados que nascem da natureza corrompida e renunciar ao amor delirante das riquezas, das honras, dos prazeres. É preciso também moderar as paixões humanas segundo os ditames da razão e a do Decálogo, submetendo a parte inferior do ser humano à superior, a natureza à graça, o homem ao Criador, a razão à fé. A mortificação cristã tem o magnífico objetivo de fazer crescer a vida sobrenatural e jamais pode ser vista como uma mutilação, pois, pelo contrário, engrandece o cristão e o leva a curtir muito melhor a vida, dado que leva àquele meio termo que traz equilíbrio psicossomático. Atinge-se então a ordem hierárquica entre as faculdades humanas. Trata-se de uma renúncia medicinal para melhor possuir os bem espirituais sem deixar de usufruir de tudo de belo e bom que Deus colocou neste mundo. O discípulo de Cristo que se entrega à disciplina da vontade se difere inteiramente do epígono da Escola Estóica, pois jamais procura a renúncia pela renúncia, mas a utiliza na ótica da prática das virtudes. Faz, por exemplo, morrer a gula para se exercitar no comedimento, mas jamais se entrega a um regime exagerado prejudicial à saúde, pois sabe que a vida é um dom precioso de Deus. Em síntese, o batizado se mortifica para fazer viver nele Cristo. Deste modo a vontade renuncia ao apego dos bens exteriores que podem obstar a caminhada rumo à santidade, à ordem sobrenatural. Tal posicionamento significa uma abnegação ou negação daquilo que é contrário ao amor ordenado de si mesmo.

Os desejos, as aspirações se tornam inteiramente legítimas, de acordo com a vontade de Deus. É neste sentido que Jesus aconselhou: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo” (Lc 9,23). Há, desta forma, um desapego dos bens materiais que são vistos apenas como instrumentos doados pelo Ser Supremo para se fazer o bem e manter a sobrevivência nesta terra. O Mestre divino afirmou: “Quem não renuncia a tudo que possui, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,33) e o seu seguidor não se apega ao que tem e está sempre satisfeito com o lugar onde o colocou a Providência divina. Trabalha, tenta prosperar, mas sempre visando ajudar os outros nunca se esquecendo das obras sociais da Igreja. Dentro desta perspectiva na ascese cristã ganha importância capital a crucifixão da carne e de suas concupiscências numa total adesão à lei evangélica. É o que falou São Paulo: “Os que são de Cristo crucificaram sua carne com seus vícios e concupiscências” (Gl 5,24). É o despojar do homem velho para se revestir do homem novo que é Cristo (Cl 3,9). É que a vida do cristão está escondida com Jesus em Deus (Cl 3,3). Em suma, a ascese cristã modera, reprime, ordena, orienta todo o ser humano externo e interno para Deus por motivos sobrenaturais.


Ascetismo e Caridade

Esta moral ascética cristã é racionalmente fundada sobre o teísmo e a Revelação. Garante, pois, ao homem, a consecução da felicidade na vida eterna, e de uma felicidade que transcende toda aspiração e capacidade humana. Na vida temporal esta moral ascética apresenta-se também como a mais sábia, porquanto torna conformada e voluntária a aceitação do sofrimento, já que não se apresenta mais como inesperado e trágico, pois não fica certamente dispensado da dor quem neste mundo entende de viver apenas moralmente e não heroicamente, e nem sequer quem entende de gozar livremente dos bens da terra. Provê igualmente esta moral ascética o bem dos outros, ou não parece, ao contrário, - por causa da renúncia ao mundo devastado pelo mal - isolar fatalmente os homens dos seus semelhantes? E este isolamento não é ainda mais acentuado, quando a perfeição se eleva dos preceitos aos conselhos?

Poderia assim parecer, mas assim não é. Antes de tudo, tal egoísmo está em franco contraste com o conceito de caridade, dominante na moral cristã, em lugar do clássico conceito de justiça. A caridade cristã purificou a civilização antiga da barbárie da exposição das crianças, da escravidão, das lutas dos gladiadores, barbárie que se repete, mais ou menos intensamente, no egoísmo de toda civilização puramente humana. A caridade cristã favoreceu ainda obras numerosas e fecundas para os infelizes, os velhos, os pobres, os doentes, mais ou menos desprezados e negligenciados na civilização antiga, bem como em toda civilização mundana em geral, apesar das aparências contrárias.

Em segundo lugar, a convivência social, moral, racional, não é possível nas atuais condições de egoísmo e malvadez humana, mas faz-se mister a ascética cristã para vencer este egoísmo mediante a paciência, a humildade, a caridade.

Finalmente, a renúncia ascética não é estéril egoísmo, mas o contrário. Precisamente pelo fato de que o homem, renunciando a si mesmo e dando-se em holocausto a Deus, é disposto, até desejoso, imensamente capaz, cheio de boa vontade para sacrificar-se inteiramente para com todos. Não considera, todavia, a humanidade como fim último, como divina, mas conforme à transcendente vontade de Deus, que criou o homem à sua imagem, e o remiu com a Paixão do seu Verbo encarnado. A ética cristã da renúncia perfeita ao mundo é a mais proveitosa para a sociedade - familiar, nacional, universal. De fato, a prescindir dos demais, mesmo razoáveis, motivos de altruísmo, unicamente quem é indiferente às qualidades alheias, até solícito dos mais miseráveis, não encontra limites no altruísmo, no heroísmo, mas uma oportunidade de engrandecimento mediante o sacrifício.

Este será o caminho percorrido - embora de modos diferentes - pelos santos, os super-homens do cristianismo: o caminho dos conselhos evangélicos, que é o caminho mais perfeito do que o dos preceitos. E os santos mais facilmente florescem nas Ordens Religiosas, precisamente porque é característica das Ordens Religiosas a via dos conselhos, da renúncia ao mundo, cada qual realizando este ascetismo cristão com diversa intensidade, de modos muito diferentes, conforme os tempos, os lugares, os temperamentos pessoais e as necessidades sociais. E é mediante e através desta renúncia ascética, que os santos se tornam os grandes benfeitores da humanidade.


Assim ensinam os antigos

Conferência de Santo Antão aos Monges sobre o discernimento dos espíritos e exortação à virtude

Um dia em que ele saiu, vieram todos os monges e lhe pediram uma conferência. Falou-lhes em língua copta, como segue:

“As Escrituras bastam realmente para nossa instrução. No entanto, é bom para nós alentar-nos uns aos outros na fé e usar da palavra para estimular-nos. Sejam, por isso, como meninos e tragam a seu pai o que saibam e lho digam, tal como eu, sendo o mais velho, reparto com vocês meus conhecimento e minha experiência.

Para começar, tenhamos todos o mesmo zelo, para não renunciar ao que começamos, para não perder o ânimo, para não dizer: ‘Passamos demasiado tempo nesta vida ascética’. Não, começando de novo cada dia, aumentemos nosso zelo. Toda a vida do homem é muito breve comparada ao tempo vindouro, de modo que todo o nosso tempo é nada comparado com a vida eterna. No mundo, tudo se vende; e cada coisa se comercia segundo seu valor por algo equivalente; mas a promessa da vida eterna pode comprar-se por muito pouco. A Escritura diz: ‘Ainda que alguém viva setenta anos, e o mais robusto até oitenta, a maior parte é fadiga inútil’ (Sl 89,10). Se, pois, vivemos todos nossos oitenta anos, ou mesmo cem, na prática da vida ascética, não vamos reinar o mesmo período de cem anos, mas em vez dos cem reinaremos para sempre. E ainda que nosso esforço seja na terra, não receberemos nossa herança na terra mas o que nos foi prometido no céu. Mais ainda, vamos abandonar nosso corpo corruptível e recebe-lo-emos incorruptível (cf 1Cor 15,42).

Assim, filhinhos, não nos cansemos nem pensemos que nos afastamos muito tempo ou que estamos fazendo algo grande. Pois ‘os sofrimentos da vida presente não podem comparar-se com a glória futura que nos será revelada’ (Rm 8,18). Não olhemos tampouco para trás, para o mundo, crendo que renunciamos a grandes coisas, pois também o mundo é muito trivial comparado com o céu. E ainda que fôssemos donos de toda a terra e renunciássemos a toda ela, nada seria isto comparado com o reino dos céus. Assim como uma pessoa desprezaria uma moeda de cobre para ganhar cem moedas de ouro, assim o que é dono de toda a terra e a ela renuncia, dá realmente pouco e recebe cem vezes mais (cf Mt 19,29). Se, pois, nem sequer toda a terra equivale ao céu, certamente o que entrega uma porção de terra não deve jactar-se ou penalizar-se: o que abandona é praticamente nada, ainda que seja um lar ou uma soma considerável de dinheiro aquilo de que se separa.

Devemos, além disso ter em conta que se não deixamos estas coisas por amor à virtude, teremos depois de abandoná-las de qualquer modo e a miúdo também, como nos recorda o Eclesiastes (2,18; 4,8; 6,2), a pessoas às quais não teríamos querido deixá-las. Então, por que não fazer da necessidade virtude e entregá-las de modo a podermos herdar um reino por acréscimo? Por isso nenhum de nós tenha nem sequer o desejo de possuir riquezas. Do que nos serve possuir o que não podemos levar conosco? Por que não possuir antes aquelas coisas que podemos levar conosco: prudência, justiça, temperança, fortaleza, entendimento, caridade, amor aos pobres, fé em Cristo, humildade, hospitalidade?. Uma vez possuindo-as, veremos que elas vão diante de nós, preparando-nos as boas-vindas na terra dos mansos” (cf Lc 16,9; Mt 5,4).

Do capítulo 12 do Livro da Imitação de Cristo:

Bom é passarmos algumas vezes por aflições e contrariedades, porque freqüentemente fazem o homem refletir, lembrando-lhe que vive no desterro e, portanto, não deve pôr sua esperança em coisas alguma do mundo. Bom é econtrarmos às vezes contradições, e que de nós façam conceito mau ou pouco favorável, ainda quando nossas obras e intenções sejam boas. Isto ordinariamente nos conduz à humildade e nos preserva da vanglória. Porque, então, mais depressa recorremos ao testemunho interior de Deus, quando de fora somos vilipendiados e desacreditados pelos homens.

Por isso, devia o homem firmar-se de tal modo em Deus, que lhe não fosse mais necessário mendigar consolações às criaturas. Assim que o homem de boa vontade está atribulado ou tentado, ou molestado por maus pensamentos, sente logo melhor a necessidade que tem de Deus, sem o qual não pode fazer bem algum. Então se entristece, geme e chora pelas misérias que padece. Então causa-lhe tédio viver mais tempo, e deseja que venha a morte livrá-lo do corpo e unilo a Cristo. Então compreende também que neste mundo não pode haver perfeita segurança nem paz completa.

Do capítulo 13 do Livro da Imitação de Cristo:

Enquanto vivemos neste mundo, não podemos estar sem trabalhos e tentações. Por isso lemos no livro de (7,1): É um combate a vida do homem sobre a terra. Cada qual, pois, deve estar acautelado contra as tentações, mediante a vigilância e a oração, para não dar azo às ilusões do demônio, que nunca dorme, mas anda por toda parte em busca de quem possa devorar (1 Pdr 5,8) . Ninguém há tão perfeito e santo, que não tenha, às vezes, tentações, e não podemos ser delas totalmente isentos.

São, todavia, utilíssimas ao homem as tentações, posto que sejam molestas e graves, porque nos humilham, purificam e instruem. Todos os santos passaram por muitas tribulações e tentações, e com elas aproveitaram; aqueles, porém, que não as puderam suportar foram reprovados e pereceram. Não há Ordem tão santa nem lugar tão retirado, em que não haja tentações e adversidades.

Nenhum homem está totalmente livre das tentações, enquanto vive, porque em nós mesmos está a causa donde procedem: a concupiscência em que nascemos. Mal acaba uma tentação ou tribulação, outra sobrevém, e sempre teremos que sofrer, porque perdemos o dom da primitiva felicidade. Muitos procuram fugir às tentações, e outras piores encontram. Não basta a fuga para vencê-las; é pela paciência e verdadeira humildade que nos tornamos mais fortes que todos os nossos inimigos.

Pouco adianta quem somente evita as ocasiões exteriores, sem arrancar as raízes; antes lhe voltarão mais depressa as tentações, e se achará pior. Vencê-las-á melhor com o auxílio de Deus, a pouco e pouco com paciência e resignação, que com importuna violência e esforço próprio. Toma a miúdo conselho na tentação e não sejas desabrido e áspero para o que é tentado, trata antes de o consolar, como desejas ser consolado.

Do capítulo 13 do Livro da Imitação de Cristo:

O princípio de todas a más tentações é a inconstância do espírito e a pouca confiança em Deus; pois, assim como as ondas lançam de uma parte a outra o navio sem leme, assim as tentações combatem o homem descuidado e inconstante em seus propósitos. O ferro é provado pelo fogo, e o justo pela tentação. Ignoramos muitas vezes o que podemos, mas a tentação manifesta o que somos. Todavia, devemos vigiar, principalmente no princípio da tentação; porque mais fácil nos será vencer o inimigo, quando não o deixarmos entrar na alma, enfrentando-o logo que bater no limiar. Por isso disse alguém: Resiste desde o princípio, que vem tarde o remédio, quando cresceu o mal com a muita demora (Ovídio). Porque primeiro ocorre à mente um simples pensamento, donde nasce a importuna imaginação, depois o deleite, o movimento; e assim, pouco a pouco, entra de todo na alma o malvado inimigo. E quanto mais alguém for indolente em lhe resistir, tanto mais fraco se tornará cada dia, e mais forte o seu adversário.

Uns padecem maiores tentações no começo de sua conversão, outros, no fim; outros por quase toda a vida são molestados por elas. Alguns são tentados levemente, segundo a sabedoria da divina Providência, que pondera as circunstâncias e o merecimento dos homens, e tudo predispõe para a salvação de seus eleitos.

Por isso não devemos desesperar, quando somos tentados; mas até, com maior fervor, pedir a Deus que se digne ajudar-nos em toda provação, pois que, no dizer de S. Paulo, nos dará graça suficiente na tentação para que a possamos vencer (1 Cor 10,13). Humilhemos, portanto, nossas almas, debaixo da mão de Deus, em qualquer tentação e tribulação porque ele há de salvar e engrandecer os que são humildes de coração.

Nas tentações e adversidades se vê quanto cada um tem aproveitado; nelas consiste o maior merecimento e se patenteia melhor a virtude. Não é lá grande coisa ser o homem devoto e fervoroso quando tudo lhe corre bem; mas, se no tempo da adversidade conserva a paciência, pode-se esperar grande progresso. Alguns há que vencem as grandes tentações e, nas pequenas, caem freqüentemente, para que, humilhados, não presumam de si grandes coisas, visto que com tão pequenas sucumbem.

João Cassiano - XIV Conferência dos Padres do Deserto

O Abade Nésteros e a Ciência Espiritual - condensado da tradução de D. Timóteo Amoroso Anastácio - Diálogo entre o Abade Nésteros e os monges Cassiano e Germano.

NÉSTEROS: Existem neste mundo muitas espécies de ciências, e sua variedade corresponde à das artes e profissões. Nenhuma, entretanto, existe que não seja ensinada conforme uma ordem e um método próprios, pelos quais podem adquirí-las os que as procuram. Se, portanto, estas artes só se aprendem mediante linhas certas e particulares, quanto mais a disciplina e a profissão da nossa vida religiosa, que visa contemplar os arcanos das coisas invisíveis e busca não vantagens presentes, mas o prêmio da eterna recompensa, exige uma ordem e um método bem determinado!

Dupla é a ciência da vida religiosa: a primeira, a prática, isto é, a ativa, consuma-se no trabalho de emendar os costumes e se purificar dos vícios. A segunda, a teorética, consiste na contemplação das coisas divinas e no conhecimento das significações mais sagradas. Quem quiser chegar à teorética tem que primeiro, necessariamente, adquirir a ciência ativa, empenhando-se com todo o zelo e virtude. A ciência prática podemos possuí-la sem a teorética, mas a teorética não pode, absolutamente, ser conseguida sem a ativa. São como dois degraus ordenados e distintos para que a humildade humana possa subir para as alturas. Se eles se sucedem da maneira que dissemos, é possível chegar ao cume. É, pois, em vão que tende à visão de Deus quem não evita o contágio dos vícios: "O Espírito de Deus detesta o fingimento e não habita num corpo escravo do pecado". Sab. 1, 5 e 4.

A perfeição da vida ativa consiste em dois pontos. O primeiro é o modo de conhecer a natureza dos vícios e o método de curá-los. O segundo é discernir a ordem das virtudes e formar com a sua perfeição a nossa alma. De que maneira, na verdade, poderia atingir o plano das virtudes quem não pôde compreender a natureza dos vícios nem se esforçou para extirpá-los? Saibamos, no entanto, que nos custará duas vezes mais a pena e o suor para expulsar os vícios do que para adquirir as virtudes. Isto nós não compreendemos por uma conjectura pessoal, mas é o que nos ensina a palavra daquele que é o único a conhecer as forças e a condição da sua criatura: "Eis que eu hoje te estabeleci sobre as nações e sobre reinos, a fim de que arranques e destruas, ponhas a perder e dissipes, edifiques e plantes". Jer. 1, 10.

Para expelir o que é nocivo, ele designou quatro coisas necessárias; para tornar-se perfeito nas virtudes e adquirir tudo o que diz respeito à justiça, somente duas. A prática que, conforme dissemos, consiste em dois pontos, divide-se em muitas profissões e ocupações. Alguns, com efeito, dirigem toda a sua intenção para a vida secreta do deserto e para a pureza do coração. Outros dedicaram a sua solicitude e zelo a instruir irmãos e à cura vigilante dos cenóbios. Outros se comprazem no pio serviço de hospitalidade e de caridade prestada a estrangeiros em hospitais. Outros ainda, escolhendo o cuidado de enfermos, ou a mediação em favor dos miseráveis e oprimidos, ou que se aplicaram ao ensino ou, ainda, à distribuição de esmola aos pobres, tiveram um lugar eminente entre os maiores e mais santos, por sua afeição e bondade. É útil e conveniente a cada um que conforme o propósito de vida que escolheu ou a graça que recebeu, embora louvando e admirando as virtudes dos outros, não se afaste, de modo algum, da profissão que abraçou uma vez por todas, sabendo que, segundo o Apóstolo, um é o corpo da Igreja, mas muitos são os seus membros.

Costuma acontecer aos que ainda não estão bem firmes na profissão que abraçaram que, ouvindo louvores referentes a outros que vivem em situações diferentes e praticam outras virtudes que as suas, de tal modo se inflamam que desejam imitá-los imediatamente em sua disciplina. Os esforços que a fraqueza humana envida em tais circunstâncias são necessariamente vãos, pois é impossível que um só e mesmo homem brilhe ao mesmo tempo em todas as virtudes acima enumeradas. Ao pretender todas juntas, acontece inevitavelmente que enquanto vai atrás de todas, não consegue nenhuma integralmente. Muitos são os caminhos que levam a Deus. Cada um, portanto, siga o que ele tomou até o fim, com irrevogável fidelidade, para ser perfeito em qualquer profissão. Mas, voltemos à exposição da ciência que constituíu o exórdio desta conversação. Como dissemos acima, a prática se divide em muitas profissões e atividades. A teorética, por seu lado, se divide em duas partes: a interpretação histórica e a inteligência espiritual. É por isto que Salomão, ao enumerar a graça multiforme da Igreja, acrescentou: "Todos os que estão junto dele, têm uma dupla vestimenta". Prov. 31, 21.

Quanto à ciência espiritual, ela compreende três gêneros: a tropologia, a alegoria e a anagogia, dos quais se diz nos Provérbios: "Quanto a ti, escreve estas coisas em tríplices letras sobre a largura de teu coração". Prov. 22, 20. A história abraça o conhecimento das coisas passadas e visíveis, que o Apóstolo narra deste modo: "Está escrito que Abraão teve dois filhos, um da escrava e o outro da mulher livre. O que nasceu da escrava, nasceu segundo a carne; o que nasceu da livre, em virtude da promessa". Gal. 4, 22-23. O que se segue, pertence à alegoria, porque aí se diz que as coisas que aconteceram realmente prefiguravam um outro mistério: "Estas mulheres", continua ele, "são as duas Alianças. Uma, a do Monte Sinai, gerando na escravidão, e é Agar. O Sinai é um monte da Arábia, que simboliza a Jerusalém de agora, que é escrava com seus filhos". Gal. 4, 24-25. A anagogia se eleva dos mistérios espirituais aos segredos do céu, mais sublimes e sagrados, como se vê no que o Apóstolo acrescenta: "Mas a Jerusalém do alto é livre, e é ela que é nossa mãe. Porque está escrito: `Alegra-te, estéril que agora dás à luz, irrompe em gritos, tu que não geravas, porque os filhos da abandonada são mais numerosos do que os daquela que tinha esposo'". Gal. 4, 26-27. A tropologia é a explicação moral relativa à purificação da vida e à formação ascética, como se por estas duas Alianças compreendêssemos a prática e a ciência da teorética. Ou que quiséssemos tomar Jerusalém ou Sião pela alma humana, segundo estas palavras: "Louva, Jerusalém, o teu Senhor; louva o teu Deus, Sião". Salmo 147, 12.

Deste modo, portanto, as quatro figuras, se assim quisermos, se reúnem em uma só, de maneira que a mesma e única Jerusalém pode ser entendida em quatro acepções diferentes. Segundo a história, é a cidade dos Judeus; segundo a alegoria, a cidade celeste; segundo a tropologia, é alma humana, que é, sob esse nome, freqüentemente increpada ou louvada pelo Senhor. Destes quatro gêneros de interpretação diz o bem aventurado Apóstolo: "Agora, pois, irmãos, se eu venho a vós falando em línguas, que proveito vos trago, a não ser que vos fale em revelação, ou em ciência, em profecia ou em doutrina?" 1 Cor. 14, 6.

A revelação se refere à alegoria, pela qual aquilo que a narrativa histórica esconde se torna manifesto pelo sentido espiritual. A Ciência, também lembrada pelo Apóstolo, representa a tropologia. Esta nos faz discernir, mediante um exame prudente, a utilidade ou decência das coisas que dependem do juízo prático. A Profecia, que o Apóstolo pôs em terceiro lugar, significa a anagogia, que transfere o discurso para as coisas futuras e invisíveis. A Doutrina expõe simplesmente a ordem da história, em que não há nenhum sentido mais oculto do que aquele que soa nas próprias palavras. Se, portanto, sois solícitos em chegar à luz da ciência espiritual, não por vício de vaidade e jactância, mas pela graça da purificação, inflamai-vos, primeiro, do desejo daquela bem aventurança da qual se diz: "Bem aventurados os puros de coração, porque verão a Deus", Mat. 5, 8 a fim de que possais alcançar também aquela outra da qual fala o anjo a Daniel: "Os que tiverem sido doutos, refulgirão como o esplendor do firmamento, e os que instruem a muitos para a justiça, brilharão como as estrelas nas eternidades sem fim". Dan. 12, 3. E noutro profeta: "Acendei em vós a luz da ciência, enquanto é tempo". Os. 10, 12.

Guardando esta diligência que eu sinto em vós pela leitura, apressai-vos, com todo o zelo, para possuir o mais depressa possível a plenitude da ciência prática, isto é, moral. Sem ela é impossível ter a pureza teorética de que falamos. E esta só a conseguem, como se fosse, por assim dizer, um prêmio, aqueles que, depois de muito servir numa vida de obras e trabalhos, se tornam perfeitos, não pelo efeito das palavras de seus mestres, mas pela virtude de seus próprios atos. Não é na meditação da Lei que eles adquirem a inteligência, mas como o fruto das suas obras. Com o salmista, eles cantam: "Pelos vosso mandamentos, eu tive a inteligência". Salmo 118, 104. E, depois de terem eliminado as suas paixões, dizem com confiança: "Eu salmodiarei, e terei a inteligência no caminho imaculado". Salmo 100, 1-2.

Se, portanto, quereis preparar no vosso coração o sagrado tabernáculo da ciência espiritual, purificai-vos do contágio de todos os vícios e despojai-vos das preocupações deste século. É, com efeito, impossível que a alma, envolvida mesmo ligeiramente pelas preocupações do mundo, alcance o dom da ciência, se torne fecunda em sentidos espirituais e guarde com tenacidade as santas leituras. Observai, pois, antes de tudo, o empenho em ordenar à vossa boca um completo silêncio, a fim de que não as anulem por uma vã exaltação nem o vosso zelo na leitura, nem o vosso esforço animado por tanto desejo. E nisso está o primeiro passo na ciência prática: receber os ensinamentos e as palavras de todos os antigos de coração atento e boca, por assim dizer, muda, e conservá-los com solicitude na alma. A quem, somente em vista do louvor humano, insiste no esforço da leitura, é impossível merecer o dom da verdadeira ciência. Os que são prisioneiros desta paixão estão forçosamente escravizados a outros vícios, sobretudo a soberba.

Sê, portanto, em tudo "pronto para escutar, mas lento para falar", Tg. 1, 19 para que não se aplique a ti o que nota Salomão: "Se vires um homem veloz na palavra, fica sabendo que no insensato há mais esperança do que nele". Prov. 29, 20. Urge que não vos deixeis levar pelo exemplo daqueles que adquiriram habilidade em discutir e uma certa afluência verbal. Eles podem dissertar com elegância e facúndia sobre tudo que quiserem e passam por ter a ciência espiritual aos olhos dos que não são capazes de perceber o que eles são. Pois uma coisa é ter facilidade em falar e certo brilho no discurso, e outra é entrar até o coração e a medula das palavras celestes e contemplar, com o olhar mais puro do coração, os mistérios mais profundos e escondidos. Isto não o pode nenhuma ciência humana nem erudição secular possuir, mas somente a pureza da alma, pela iluminação do Espírito Santo. Se, por conseguinte, queres chegar à ciência verdadeira das Escrituras, apressa-te a conseguir, primeiro, uma invariável humildade de coração. É ela que te levará à ciência, não a que enche de vento (1 Cor. 8,1), mas a que ilumina, pela perfeição da caridade. É impossível a uma alma impura obter a ciência espiritual. Depois disto, eliminadas as preocupações e os pensamentos terrenos, esforça-te, de toda maneira, por dedicar-te assiduamente à leitura sagrada, de modo que a meditação contínua impregne a tua alma e a forme à sua própria imagem, fazendo dela, por assim dizer, uma arca da aliança (Heb. 9, 4-5), com as duas tábuas de pedra, isto é, a eterna firmeza dos dois Testamentos: a urna de ouro, símbolo de uma memória oura e sem mancha, que conserva com tenacidade o maná escondido, vale dizer, a eterna e celeste doçura dos sentidos espirituais e do pão dos anjos, e a vara de Aarão, quer dizer, o estandarte da salvação de nosso sumo e verdadeiro pontífice Jesus Cristo.

Todas estas coisas são protegidas por dois querubins, isto é, a plenitude da ciência histórica e espiritual. Porque Querubim significa "plenitude de ciência". Devemos, por conseguinte, ter todo o empenho em aprender de cor a série das Sagradas Escrituras e em repassá-las na memória, sem cessar. Esta meditação contínua nos produzirá um duplo fruto. Primeiro, enquanto a atenção da mente está ocupada em ler e em preparar as leituras, não se deixará cativar pelos laços dos maus pensamentos. Em segundo lugar, à medida em que cresce, por este esforço, a renovação de nossa mente, começa também a mudar a face das Escrituras, e a beleza de uma compreensão mais sagrada aumenta com os nossos progressos; elas se acomodam à capacidade dos sensos humanos, aparecendo terrena para o homem carnal, e divina para os espirituais. Para mostrar melhor, por meio de um exemplo, o que tentamos afirmar, basta citar um testemunho da Lei de Moisés. Por ele, vou provar que todos os preceitos celestes se estendem a todo o gênero humano, mas segundo a medida do estado de cada um de nós. Está escrito na Lei: "Não fornicarás". O homem ainda prisioneiro das paixões e obscenidades da carne guardará proveitosamente este preceito, tomando-o simplesmente em seu sentido literal. Mas aquele que já se desprendeu da ação torpe e do afeto impuro, cumpre-lhe observá-lo em seu sentido espiritual, tendo cuidado para não cair em uma forma mais sutil do pecado de fornicação que consiste na divagação dos pensamentos. Todo pensamento que afasta, por pouco que seja, de Deus, e não somente os pensamentos torpes, mas também qualquer pensamento inútil é, aos olhos do perfeito, uma fornicação impura.

CASSIANO: Ao ouvir tais coisas, fui tomado por uma viva compunção. "Tudo o que acabais de desenvolver com tanta abundância", disse-lhe eu, "trouxe-me um desespero ainda maior do que o que eu sentia até agora". Pois, além daquelas servidões da alma que todos experimentam, há um obstáculo a mais para a minha salvação. Seja pelo zelo de meu pedagogo, seja por minha contínua dedicação à leitura, minha mente está agora como que infectada pelas obras dos poetas, por fábulas frívolas e por histórias de guerras de que fui imbuído desde pequeno em meus primeiros rudimentos de estudos, que me ocupam mesmo à hora da oração. Quando salmodio, eis que a minha alma, iludida por estas fantasias, não consegue aspirar à contemplação das coisas celestes.

NÉSTEROS: Do próprio mal que te faz desesperar da purificação poderá sair um remédio bastante rápido e eficaz. A condição única é que transfiras para a leitura a meditação das Escrituras espirituais a diligência e o zelo que, segundo dizias, tiveste pelos estudos seculares. É, com efeito, inevitável que tua mente fique ocupada com aqueles poemas até que ela tenha conquistado, com igual zelo e assiduidade, outros objetos que repasse em si mesma e possa dar à luz, em lugar dos pensamentos terrenos e infrutíferos, outros espirituais e divinos. O espírito humano não pode ficar vazio de pensamentos. Se, portanto, ele não for ocupado com as coisas espirituais, forçosamente continuará embaraçado por aqueles que antes aprendera. A fim de que a ciência espiritual tome em ti força e perpétua solidez, e não a desfrutes só por pouco tempo, como os que não a possuem por seu esforço e apenas entram em relação com ela pelo testemunho alheio percebendo-a, por assim dizer, como um vago perfume no ar, mas para que ela seja de certo modo entranhada no teu coração e aí considerada pelo teu olhar e como que apalpada, convém que observes com toda a diligência o seguinte. Acontecerá que, por acaso, conheças muito bem o que ouvires em uma conferência. Neste caso, não recebas com ar de desprezo e fastio o que já conheces. Ao contrário, confia isto ao teu coração com a mesma avidez que devemos ter sempre para ouvir as desejáveis palavras da salvação. Por mais freqüente que nos seja a exposição de assuntos sérios, jamais uma alma que tem sede da verdadeira ciência experimentará a saciedade da aversão. Eles lhe serão novos cada dia, e também cada dia desejados. E quanto mais a alma sedenta beber desta ciência, tanto mais avidamente a escutará ou dela falará.

É evidente indício de mente morna e soberba o receber com desgosto e negligência o remédio de palavras salutares, mesmo à custa de uma excessiva assiduidade em fazê-las escutar pois, se recolheres estas verdades com todo o cuidado e forem guardadas no mais fundo da alma e marcadas com o selo do silêncio, elas serão como um vinho aromático que alegrará o coração do homem. Amadurecidas por longas reflexões e ao ritmo demorado da paciência, elas se derramarão do vaso de tua alma com uma fragância de perfume. Acontecerá então que ser-te-á dada a bem aventurança que o mesmo profeta promete: "O Senhor fará que não mais se separe de ti o teu mestre, e os teus olhos verão o teu preceptor. E teus ouvidos escutarão a voz daquele que te avisará, gritando atrás de ti: `Eis o caminho, anda por ele, sem desviar para a direita nem para a esquerda'". Is. 30, 20-21. Como, aliás, já dissemos, é de todo impossível que alguém possa conhecer ou ensinar estas coisas a não ser que as tenha experimentado. E ainda que tenha a presunção de ensinar, o seu discurso há de ser, fora de dúvida, ineficaz e inútil, limitando-se a atingir as orelhas dos ouvintes sem conseguir penetrar no seu coração. Impossível, com efeito, a uma alma impura, por mais assídua que seja à leitura, adquirir a ciência espiritual.

GERMANO: Esta afirmação não nos parece absolutamente fundada na verdade. Como pode acontecer que muitos judeus e também hereges e até católicos que deixam se envolver por vícios diversos chegam a um conhecimento perfeito das Escrituras ao passo que, ao contrário, uma imensa multidão de santos homens de coração purificado de toda mancha de pecado se contenta com uma fé bem simples e ignora os segredos de uma ciência mais profunda? Como fica esta tua sentença que reserva aos corações puros a ciência espiritual?

NÉSTEROS: Já antes dissemos que tais homens só têm uma certa perícia em discorrer, unida a uma feliz elocução, mas que são incapazes de entrar no âmago das Escrituras e no mistério de seus sentidos espirituais. A verdadeira ciência só a possuem os verdadeiros adoradores de Deus, e não aquele povo ao qual se diz: "Porque rejeitaste a ciência, eu também te rejeito, para que não exerças as funções do meu sacerdócio". Os. 4, 6. Se está dito que em Cristo "estão escondidos todos os tesouros da sabedoria", Col. 2, 3 como se poderá crer que obteve a verdadeira ciência aquele que despreza ir ao encontro de Cristo ou que, tendo-o encontrado, o desonra por obras impuras? "O Espírito de Deus foge do fingido e não habita num corpo escravo do pecado". Sab. 1, 4-5. Não se pode, pois, chegar à ciência espiritual senão seguindo a ordem que um dos profetas exprimiu de modo muito feliz: "Semeai para vós em vista da justiça, colhei a esperança da vida, acendei em vós a luz da ciência". Os. 10, 12. O salmista também determina que essa ordem deve ser observada: "Bem aventurados os que são imaculados em seus caminhos, que andam na Lei do Senhor; bem aventurados os que perscrutam os seus tesouros". Salmo 118, 1-2. Ele não disse primeiro que são bem aventurados os que perscrutam os testemunhos do Senhor, acrescentando depois que são bem aventurados os que são imaculados em seu caminho. Aqueles a quem te referiste, portanto, não podem possuir, dada a sua impureza, esta ciência. Só possuem uma ciência pseudônima, isto é, falsa, que não merece este nome. Desta é que nos fala o bem aventurado Apóstolo: "Ó Timóteo, guarda o depósito, evitando as novidades profanas em teus discursos e as oposições de uma ciência de falso nome". Quanto àqueles, pois, que parecem adquirir certa aparência de ciência ou que, entregando-se com ardor a ler os volumes sagrados e a decorá-los de memória sem porém, abandonar os vícios da carne, os Provérbios têm esta expressão feliz: "Como anéis de ouro no focinho de um porco, assim é a beleza de uma mulher de maus costumes". Prov. 11, 22.

Esta verdadeira ciência espiritual está tão longe da erudição secular manchada pela impureza dos vícios carnais que às vezes, como sabemos, floresceu maravilhosamente até em homens desprovidos do dom da palavra e iletrados. É o que se comprova, do modo mais claro, nos Apóstolos e também nos santos varões. Deles é que está escrito nos Atos dos Apóstolos: "Vendo a constância de Pedro e João, e verificando que eram homens iletrados e de baixa condição, ficaram cheios de espanto". Atos 4, 13. Se, pois, te preocupas em chegar a respirar o seu perfume incorruptível, trabalha primeiro, de todas as tuas forças, para obter do Senhor a pureza da castidade. Pois ninguém possui a ciência espiritual enquanto se deixa dominar pelas paixões carnais, e sobretudo pela fornicação. Quando, portanto, chegares, através desta disciplina e nessa ordem, à ciência espiritual, terás também tu, fora de qualquer dúvida, uma doutrina que não será estéril nem vã, mas cheia de vida e de frutos. Então poderás lançar nos corações dos teus ouvintes a semente da palavra de salvação, que o orvalho abundante do Espírito Santo virá em seguida fecundar. Segundo a promessa do profeta, "A chuva será dada à tua semente, onde quer que semeares a terra; e o pão dos frutos da tua terra será muito abundante e substancial". Is. 30, 23.

Guarda-te, portanto, quando a tua idade mais madura te puser em condições de ensinar o que aprenderes mais por uma experiência laboriosa do que pela leitura, de te deixares levar pelo amor da vanglória, prodigalizando ao acaso o teu saber a almas impuras. Cairias naquilo que o sapientíssimo Salomão condena, ao dizer: "Não conduzas o ímpio às pastagens do justo, nem te deixes seduzir pela saciedade". Prov. 24, 25. Pois, com efeito, "Não há necessidade de sabedoria onde falta o juízo". Prov. 18, 3. Evita, pois, com a maior cautela possível, deixar-te levar pelo amor da vanglória, para não dissipar o dinheiro do seu Senhor, para tirar um proveito temporal, em vez de aplicá-lo de maneira que o Senhor, ao voltar, como está escrito, "recebesse com juros o que lhe pertence". Mat. 25, 27. Consta serem duas as causas que tornam ineficaz a doutrina espiritual. Ou aquele que ensina não experimentou o que diz, e nesse caso todos os esforços que faz para instruir não passam de ruído vazio de palavras; ou então é o ouvinte que é mau e cheio de vícios, e o seu coração endurecido permanece fechado à santa e salutar doutrina do homem espiritual. Algumas vezes, porém, a providência do nosso Deus, "que quer salvar todos os homens e conduzí-los ao conhecimento da verdade", 1 Tim. 2, 4 tem concedido, em sua pródiga liberalidade, que aquele que não se mostrou digno da pregação evangélica por uma vida irrepreensível obtenha, entretanto, a graça da ciência espiritual em vista da salvação de muitos.


Caminho dos Ascetas - Iniciação à vida espiritual

Decisão inicial e perseverança

Se queres salvar tua alma e conseguir a vida eterna, sacode o teu torpor, faz o sinal da cruz e diz: "Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém." Não se obtém a fé pela reflexão, mas pela ação. Não são as palavras e a especulação que nos ensinam quem é Deus, mas a experiência. Para deixar entrar o ar fresco, é preciso abrir a janela; para bronzear a pele, é preciso expor-se ao sol. Para adquirir a fé, é a mesma coisa; como dizem os santos Padres, não se chega ao objetivo, permanecendo confortavelmente sentado, esperando. Imitemos o filho pródigo: "Partiu, então, e foi ter com o pai" (Lc 15:20).

Qualquer que seja o peso e o número de cadeias que te acorrentam à terra, nunca é tarde demais. Não é sem motivo que está escrito que Abraão tinha setenta e cinco anos quando partiu; e os operários da undécima hora receberam o mesmo salário que os que trabalharam desde a manhã. E também, nunca é excessivamente cedo. Nunca é cedo demais para apagar um incêndio na floresta. Gostarias de ver tua alma devastada e queimada? No batismo, recebeste a ordem de te lançares num combate invisível contra os inimigos da tua alma. Põe mãos à obra. Há bastante tempo, usas de subterfúgios. Mergulhado na negligência e na preguiça, desperdiçastes um tempo precioso. Só te resta recomeçar do princípio, porque lamentavelmente deixastes que se empanasse a pureza que recebestes no batismo. Começa, pois, a trabalhar desde já, sem demora. Não adies a tua decisão para hoje à noite, para amanhã, para mais tarde, "quando eu tiver terminado o que preciso fazer agora." Um atraso pode ser fatal. Não; é agora, no mesmo instante de tomar a decisão, que deves mostrar pelos teus atos, que te despedistes do teu velho "eu" e que acabas de começar uma vida nova, à procura de um novo objetivo, seguindo novos caminhos. Levanta-te, pois, corajosamente, e diz: "Senhor, concedei-me que comece agora. Ajudai-me!" Porque, acima de tudo, tens necessidade da ajuda de Deus. Persevera em tua decisão, e não olhes para trás. Que o exemplo da mulher de Ló te sirva de lição: ela se transformou em coluna de sal, por ter olhado para trás (cf. Gn 19:26). Abandonastes o homem velho: não retomes o que é desprezível. Como Abraão, ouviste a voz do Senhor que te disse: "Deixa teu país, tua parentela e a casa de teu pai, para o país que te mostrarei" (Gn 12:1). De agora em diante, é nesse país que se deve concentrar toda a tua atenção.

A insuficiência das forças humanas

Dizem os santos Padres, todos a uma só voz: "A primeira coisa que deves inculcar no espírito é que nunca, de modo algum, te deves apoiar em ti mesmo. O combate que vais enfrentar é extraordinariamente árduo, e as forças humanas, sozinhas, são de todo insuficientes para conduzi-lo. Se confias em ti mesmo, serás derrubado de imediato, e perderás toda a vontade de continuar a luta. Só Deus te pode dar a vitória, segundo o teu desejo." Para muita gente, a decisão de não colocar em si mesmo a confiança é um sério obstáculo, que os impede de começar uma vez por todas. É necessário perseverar, sob pena de abandonar qualquer esperança de ir mais longe. Com efeito, como poderá um homem receber conselhos, formação e ajuda, se pensa que conhece tudo, pode tudo, e não tem necessidade alguma de conselhos? Através de semelhante muro de suficiência, nenhum raio de luz consegue passar. "Ai dos que são sábios a seus próprios olhos, e inteligentes na sua própria opinião!" (Is 5:21); e São Paulo nos dá este conselho: "... não vos deis ares de sábios" (Rm 12:16). O reino dos céus foi revelado aos pequeninos, mas continua oculto aos sábios e aos doutores (cf. Mt 11:25). Devemos, portanto, nos despojar dessa confiança imoderada que temos em nós mesmos.

Muitas vezes, ela está arraigada em nós tão profundamente, que já nem percebemos o domínio que exerce sobre nosso coração. O nosso egoísmo, a preocupação com a nossa pessoa, o amor próprio, são precisamente as causas de todas nossas dificuldades, de nossa falta de liberdade interior na provação, de nossas contrariedades, de nossos tormentos da alma e do corpo. Olha um pouco para ti mesmo, e verás a que ponto estás aprisionado pelo desejo de dar prazer ao teu "eu," e somente a ele. Tua liberdade está presa pelos laços estreitos do amor por ti mesmo; assim, és balançado ao acaso, como um cadáver inconsciente, da manhã à noite. "Agora, estou com vontade de beber," "agora, estou com vontade de sair," "agora estou com vontade de ler o jornal." A cada instante, teus próprios desejos te conduzem como por meio de uma rédea; e, se algum obstáculo se coloca no caminho, imediatamente perdes a calma, sob o efeito da contrariedade, da impaciência ou da cólera. Se sondares as profundezas de tua consciência, descobrirás as mesmas coisas. O sentimento de desagrado que experimentas, quando alguém te contradiz, possibilita facilmente essa verificação. Vivemos, assim, como escravos. Mas "... onde se acha o Espírito do Senhor, aí está a liberdade" (2 Cor 3:17).

Que proveito poderás encontrar em gravitar assim, constantemente, em torno do teu "eu"? Não nos ordenou o Senhor que amássemos ao próximo como a nós mesmos, e que amássemos a Deus acima de todas as coisas? Mas, nós o fazemos? Não estamos, ao contrário, sempre ocupados em pensar no nosso bem-estar? Convence-te, pois, de que nada de bom pode vir de ti próprio. E se algum pensamento desinteressado despertar em ti, podes estar certo de que não vem de ti, mas que deriva da Fonte da Bondade, e que foi depositado em ti; é um dom daquele que dá a vida. Do mesmo modo, o poder de fazer passar ao ato esse bom pensamento, não vem de ti, mas te é concedido pela Santíssima Trindade.

A horta do coração

A vida nova, que acaba de começar, tem sido muitas vezes comparada à de um agricultor. O solo que ele cultiva é um dom de Deus, como as sementes, o calor do sol, a chuva e a força que faz crescer os legumes. Mas o trabalho lhe foi confiado. Se o agricultor quiser obter uma colheita abundante, deve trabalhar de sol a sol, escavar, afofar a terra, regar, podar, pois suas culturas são ameaçadas por muitos perigos que comprometem a colheita. Deve trabalhar sem descanso, estar sempre alerta, sempre preparado para o que der e vier, sempre pronto a intervir. E apesar de tudo isso, afinal de contas, a colheita depende inteiramente do tempo e dos elementos, isto é, de Deus.

A horta que nos dispusemos a cultivar, e pela qual devemos velar, é o nosso próprio coração; a colheita é a vida eterna. Ela é eterna porque não é medida pelo tempo e pelo espaço; não está ligada às circunstâncias exteriores. É a vida verdadeira, uma vida de liberdade, de amor, de misericórdia e de luz. Não tem nenhum limite, e por isso é eterna. É uma vida espiritual, que transcorre numa esfera espiritual. É uma nova dimensão da existência. Começa neste mundo e não tem fim. Nenhuma autoridade terrestre tem poder sobre ela, e a descobrimos no fundo do coração. "Persegue-te a ti mesmo, diz santo Isaac, o Sírio, e teu inimigo será derrotado só pela tua aproximação. Faze a paz contigo, e contigo farão a paz o céu e a terra. Esforça-te para entrar na tua cela interior, e verás a morada celeste, pois elas são a mesma e única coisa: penetrando em uma, contemplarás também a outra. A escada do Reino está em ti, escondida no teu coração. Se te desfizeres do fardo de teus pecados, descobrirás em ti o atalho que tornará possível a tua ascensão." A morada celeste, de que fala o santo, é um outro nome da vida eterna. Também é chamada Reino dos céus, Reino de Deus, ou simplesmente Cristo. Viver no Cristo, é viver na vida eterna.

Um combate silencioso e invisível

Agora, que sabemos onde se deve travar o combate que acabamos de começar, e o que está em jogo, resta-nos compreender por que o chamam "combate invisível." É que ele se desenvolve inteiro em nosso coração, em silêncio, bem no fundo de nós mesmos. Esse particular também é importante, e os santos Padres insistem sobre ele com veemência: "Conserva os lábios bem fechados sobre o teu segredo!" Se abrirmos a porta durante um banho de vapor, o calor vai-se embora, e o tratamento perde a eficácia. Assim pois, não fales a ninguém da tua recente decisão. Não digas nada da tua nova vida, nem das experiências que fazes, ou daquilo com que, um dia, esperas ser favorecido. Deves tratar disso só entre Deus e ti, exclusivamente. A única exceção deve ser teu pai espiritual. O silêncio é necessário, porque falar com facilidade de seus próprios assuntos só pode incitar à preocupação consigo mesmo, além de alimentar a confiança em si.

Ora, são tendências que devem ser reprimidas, antes de tudo. Graças ao silêncio, cresce a nossa confiança naquele que vê o que está escondido; graças ao silêncio, falamos àquele que ouve sem necessidade de palavras. Procura apenas dirigir-te a ele; é nele que deve estar a tua confiança. Estás ancorado na eternidade, e na eternidade, toda palavra emudece. De agora em diante, deverás pensar que tudo o que te acontece, importante ou não, te é enviado por Deus, para ajudar-te no teu combate Só ele sabe o que te é necessário, e o que te falta no momento presente: adversidade ou prosperidade, tentação ou queda.

Nada acontece por acaso; não há nenhum acontecimento do qual nada tenhas que aprender. Deves compreender bem isso, desde já, pois é assim que aumentarás a tua confiança no Senhor, que escolhestes seguir. Os santos nos dão ainda um outro conselho para a caminhada: considera-te uma criança que apenas começa a falar, e que esteja dando os primeiros passos. Toda a tua sabedoria segundo este mundo, e todo o teu conhecimento, não têm utilidade para o combate que te espera; tampouco te servem a situação social e os bens. Tudo o que se possui, e que não é empregado no serviço do Senhor, é um fardo; um conhecimento do qual o coração não partilhe é astéril e, logo, nocivo, uma vez que é pretensioso. Chamam-no "ciência simples," porque é desprovido de calor e não alimenta o amor. Deves, pois, abandonar toda a tua ciência, e tornar-te ignorante, para seres sábio. Deves tornar- te pobre para seres rico, e fraco para seres forte.

A renúncia de si mesmo e a purificação do coração

Desarmado, fraco e desprovido de poderes, empreende a mais difícil das tarefas: vencer teus próprios desejos egoístas. É exatamente isso a "perseguição de si mesmo" de que depende, finalmente, o resultado do teu combate; pois, enquanto a tua vontade egoísta dominar, não poderás dizer ao Senhor com coração puro: "Que seja feita a tua vontade." Se não te podes desfazer da tua própria grandeza, não poderás abrir-te à verdadeira grandeza. Se te agarras à própria liberdade, não poderás tomar parte na verdadeira liberdade, que é o reino de uma única vontade. O mais profundo segredo dos santos é este: não procures a liberdade, e a liberdade te será dada. A terra não produzirá senão cardos e espinhos, diz a Escritura. É com o suor do seu rosto, com muito sofrimento, que o homem deve cultivá-la. Esta terra é o homem mesmo, sua própria natureza. Os santos Padres aconselham a começar pelas coisas pequenas; pois, como diz Santo Efrém, o Sírio, como poderias apagar um grande incêndio antes de aprender a abafar um fogo de pequenas proporções?

Se queres ser capaz de resistir a uma paixão violenta — dizem os santos Padres — abate os pequenos desejos. Não creias que se possa separá-los uns dos outros: eles se prendem como os elos de uma corrente, como as malhas de uma rede. Por isso, de nada serve atacar os vícios principais e os maus hábitos que te opõem forte resistência, se ao mesmo tempo não te esforças por vencer as pequenas fraquezas "inocentes": pequenas gulas, tentação de falar, curiosidade, hábito de se meter nos assuntos dos outros. Todos os nossos desejos, de fato, grandes ou pequenos, têm o mesmo fundamento: o nosso hábito constante de satisfazer apenas a nossa própria vontade. É, portanto, a vontade própria que deve ser condenada à morte. Desde o pecado original, nossa vontade está exclusivamente a serviço do nosso próprio "eu." Assim, o objetivo do combate é a morte da vontade própria. É preciso começar sem demora, e prosseguir na luta sem descanso.

Tens vontade de fazer uma pergunta? Não a faça! Tens a tentação de olhar pela janela? Não olhes! Tens desejo de visitar alguém? Fica em casa. Isso é perseguir a si mesmo. Através desse meio, com a ajuda de Deus, faz-se calar a voz ruidosa da própria vontade. Talvez te perguntes se isso é realmente necessário. Os santos Padres respondem com outra pergunta: Crês mesmo que seja possível encher um vaso com água pura, sem despejar primeiro a água suja que nele se encontra? Ou gostarias de receber um hóspede amado, num quarto abarrotado com toda espécie de velharias e de objetos postos de lado? Não. "Todo o que tem esperança de ver o Senhor tal como ele é, purifica-se a si mesmo," diz o apóstolo São João (1 Jo 3:3). Purifiquemos, pois, o nosso coração! Joguemos fora todas as velharias empoeiradas que aí se acumulam; lavemos o chão com escova, limpemos os vidros e abramos as janelas, para que o ar e a luz entrem no quarto, onde queremos fazer um santuário para o Senhor. Troquemos enfim de roupa, para que o nosso velho cheiro de bolor já não fique em nós, e para que não sejamos lançados fora (cf. Lc 13:28).

Eis o nosso labor de cada dia e de cada instante. Fazendo isso, estaremos apenas cumprindo o que o Senhor nos ordenou por seu santo apóstolo Tiago: "... santificai os vossos corações" (Tg 4:8). Pede-nos o apóstolo Paulo: "... purifiquemo-nos de toda mancha da carne e do espírito" (2 Cor 7:1). Diz o Cristo: "Com efeito, é de dentro do coração dos homens que saem as intenções malignas: prostituições, roubos, assassínios, adultérios, ambições desmedidas, maldades, malícia, devassidão, inveja, difamação, arrogância, insensatez. Todas estas coisas más saem de dentro do homem, e são elas que o tornam impuro" (Mc 7:21-23). Por isso, ele exorta assim os fariseus: "... limpa primeiro o interior do copo para que também o exterior fique limpo!" (Mt 23:26). Pondo em prática esse preceito de começar pelo interior, devemos ter presente em nosso espírito que não é, de modo algum, por nós mesmos, que purificamos o nosso coração. Não é para a satisfação pessoal que limpamos e polimos o quarto de hóspedes, mas sim para que o nosso hóspede se sinta bem. Nós nos perguntamos: "Será que vai achá-lo a seu gosto? Irá ficar?" Todo o nosso pensamento é para ele. Depois nos retiramos, ficamos em segundo plano, sem esperar resposta.

Existem para o homem três estados: o homem carnal, que quer viver para o próprio prazer, mesmo em detrimento dos outros; o homem natural, que deseja agradar ao mesmo tempo a si mesmo e aos outros; o homem espiritual, que quer agradar só a Deus ainda que seja em detrimento de si próprio. O primeiro está abaixo da natureza; o segundo está conforme à natureza; o terceiro está acima da natureza: é a vida no Cristo. O homem espiritual pensa espiritualmente; sua esperança é ouvir um dia os anjos se alegrarem "... por um só pecador que se converte" (Lc 15:10), um pecador que não é outro senão ele mesmo. Que sejam esses os teus sentimentos; trabalha animado por essa esperança, pois o Senhor nos deu este preceito: "... deveis ser perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito" (Mt 5:48), e "Buscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça" (Mt 6:33). Não te concedas repouso algum, nenhuma trégua, até que tenhas condenado à morte essa parte de ti mesmo que provém da natureza carnal. Toma a resolução de descobrir em ti toda manifestação do homem animal, e de persegui-lo implacavelmente. "Pois a carne tem aspirações contrárias ao espírito e o espírito contrárias à carne" (Gl 5:17). Mas se temes tornar-te justo a teus próprios olhos, trabalhando para a tua salvação; se temes ser vencido pelo orgulho espiritual, examina-te a ti mesmo, e diz que aquele que teme tornar-se justo a seus próprios olhos, é cego. Porque não vê que ele é justo a seus próprios olhos.

É preciso extirpar o desejo do gozo

A Escritura diz que apenas um pequeno número encontra o caminho estreito que conduz à vida; e que nos devemos esforçar para entrar no caminho estreito, "... pois eu vos digo que muitos procurarão entrar e não conseguirão" (Lc 13:24). Devemos procurar a causa exatamente na repugnância que temos em nos perseguir. Dominamos, talvez, os vícios mais graves e mais perigosos, mas paramos por aí. Deixamos as nossas pequenas fantasias se desenvolverem livremente, como bem entenderem. Não cometemos roubos nem trapaças; porém, os mexericos são a nossa delícia. Não nos embriagamos, mas abusamos do chá ou do café. Nosso coração continua repleto de desejos. As raízes não foram extirpadas, e nós vagamos ao acaso na floresta virgem que cresceu no solo fértil da ternura que sentimos por nós mesmos. Ataca de frente essa ternura para contigo, pois é ela a raiz de todos os males de que sofres. Se não tivesses tanta piedade por ti mesmo, perceberias imediatamente que és tu que fazes a tua própria infelicidade, porque te recusas a compreender que os males que te acontecem são, na realidade, uma coisa boa. A ternura por ti mesmo te escurece a vista.

Só tens compaixão por ti; conseqüência: teu horizonte é muito estreito. Teu amor é prisioneiro de ti mesmo. Liberta-o, e já não serás infeliz. Renuncia às tuas nocivas fraquezas e à tua insaciável sede de bem-estar; ataca-as por todos os lados! Condena à morte o teu apetite de prazer. Não lhe deixes ar para respirar. Sê rigoroso para contigo; recusa a teu "eu" carnal as migalhas de prazer que ele reclama obstinadamente. Pois o hábito se fortifica pela repetição dos atos; morre, porém, se não for alimentado. Mas, toma muito cuidado para não fechar ao mal a porta principal, deixando entreaberta a porta dos fundos, por onde ele poderá esgueirar-se, com habilidade, sob outra forma. De que serviria, por exemplo, dormir no chão, se, ao mesmo tempo, procurasses a satisfação em banhos quentes? Para que deixar de fumar, se dás livre curso ao desejo de tagarelar? Qual o benefício de não tagarelar, se lês romances cativantes? E de que servirá abster-te de ler, se deixas em liberdade a imaginação, e te deixas embalar por doces devaneios? Tudo isso não passa de diferentes formas de uma só e única realidade: a insaciável sede de satisfazer tua necessidade de gozo.

Precisas decidir-te a extirpar o simples desejo de possuir objetos agradáveis, de experimentar um sentimento de bem-estar, de ter conforto. Deves aprender a amar as contrariedades, a pobreza, o sofrimento, as privações. Deves aprender a seguir os preceitos do Senhor: não dizer coisas inúteis, não se vestir com excessivo aprimoramento, não olhar uma mulher com concupiscência, não ter acessos de cólera, etc... Todos esses preceitos nos foram dados para que os pratiquemos; não para que nos comportemos como se eles não existissem. Senão, eles não nos teriam sido impostos pelo Deus de misericórdia. "... Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo" (Mt 16:24): o Senhor confia, assim, na vontade de cada um ("se alguém quer") e ao esforço pessoal ("negue-se a si mesmo").

A vitória sobre o mundo

São Basílio, o Grande, disse: "Não nos podemos aproximar do conhecimento da verdade, com o coração inquieto." Por isso nos devemos esforçar para evitar tudo o que agita o nosso coração, tudo que é causa de falta de atenção, de super excitação, tudo o que desperta as paixões ou nos torna ansiosos. Na medida do possível, devemos nos libertar do barulho, da agitação e da inquietação que se produzem por objetos sem importância. Pois, quando servimos ao Senhor, não nos devemos "inquietar e agitar por muitas coisas," mas lembrar sempre que "uma só é necessária" (Lc 10:41-42).

Para tomar banho, é preciso despir-se. O mesmo acontece com o nosso coração: ele deve ser libertado de todos os revestimentos exteriores deste mundo, para que possa ser atingido por Aquele que deve purificá-lo. Os raios benfazejos do sol só poderão agir sobre a pele, se esta a eles se expuser a descoberto. Assim é também com a virtude salutar e vivificante do Espírito Santo. Portanto, deves despir-te. Recusa a ti mesmo — mas sem que seja excessivamente visível — tudo o que causa gozo e prazer, bem-estar e distração; tudo o que diverte ou satisfaz aos olhos, aos ouvidos, ao paladar e aos outros sentidos. "Quem não está a meu favor, está contra mim" (Mt 12:30). Despoja-te, dia após dia, de tuas necessidades e de teus hábitos, no campo das relações sociais; faze-o calma e refletidamente, sem rupturas por demais bruscas, mas, no entanto, de maneira radical. Elimina pouco a pouco tudo o que puderes dos laços que te prendem ao mundo exterior: de modo geral, "tudo o que há no mundo — a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e o orgulho das riquezas — ", pois tudo isso "não vem do Pai, mas do mundo" (1 Jo 2:16), e combate contra nossa alma. O que é, pois, o mundo? Não o imaginemos uma realidade exterior e tangível, que carrega a marca do pecado. O mundo, diz São Macário do Egito, é a cortina de chamas que circunda o coração e fecha o acesso à árvore da vida.

Humildade e vigilância

Aquele que empreende o combate interior necessita, a todo momento, de quatro coisas: humildade, grande vigilância, vontade de resistir e oração. Trata-se de vencer, com a ajuda de Deus, os "etíopes dos pensamentos," expulsando-os pela porta do coração e esmagando seus nenês contra a rocha (cf. Sl 137:9). A humildade é uma condição prévia, pois o homem orgulhoso é eliminado do combate, uma vez por todas. A vigilância é necessária para reconhecer imediatamente os inimigos, e para conservar o coração livre dos vícios. A vontade de resistir deve estar presente assim que o inimigo seja reconhecido. Porém, visto que "... sem mim, nada podeis fazer" (Jo 15:5), a oração é o trunfo mais importante, do qual depende todo o combate. Um rápido exemplo te ajudará a compreender: através da vigilância, percebes um inimigo que se aproxima da porta do teu coração: és tentado a pensar mal de um de teus irmãos. Sem demora, fica alerta a tua vontade de resistir, e afastas a tentação. Mas, no último instante, és assaltado por um pensamento de amor-próprio: "Escapei, graças à minha vigilância!" E tua vitória aparente se torna uma terrível derrota. A humildade soçobrou. Se, ao contrário, abandonares a teu Senhor todo o combate, já não terás razão de estar contente contigo mesmo, e continuarás livre. Notarás bem depressa que não há arma com mais poder do que o Nome do Senhor. Esse exemplo mostra que o combate deve ser travado sem descanso.

As sugestões más penetram em nós como uma rápida torrente, e é preciso barrar a estrada com grande rapidez. São os "... dardos inflamados do Maligno" (Ef. 6:16), de que fala o apóstolo; e eles chovem, sem cessar, sobre nós. Sem cessar, também, por conseguinte, devemos clamar ao Senhor. "Pois o nosso combate não é contra o sangue nem contra a carne, mas contra os Principados, contra as Autoridades, contra os Dominadores deste mundo de trevas, contra os Espíritos do Mal, que povoam as regiões celestes" (Ef 6:12). O combate se inicia pela sugestão, conforme explicam os santos. Vem depois a relação, quando penetramos mais no que a sugestão nos deu. A terceira fase é o consentimento, e a quarta é o pecado cometido exteriormente. A passagem de uma para a outra, dessas quatro fases, pode ser instantânea; mas também é possível que elas se sucedam como tantos outros degraus, o que permite distingui-las. A sugestão bate à porta, como um vendedor ambulante que oferece a sua mercadoria. Se o deixarmos entrar, ele começa com a sua lábia, e é difícil livrar-se dele, mesmo percebendo que sua mercadoria não vale nada. Vem o consentimento, e finalmente a compra, muitas vezes a contragosto. Deixamo-nos vencer por um enviado do Maligno. A respeito da sugestão, disse Davi: "A cada manhã eu farei calar todos os ímpios da terra" (Sl 101:8), pois "em minha casa não habitará quem pratica fraudes" (ibid. 7).

A oração — I

Do que precede, conclui-se que a oração é o primeiro e, sem comparação, o meio mais importante que devemos empregar no combate. Aprende a orar, e vencerás todas as Potências do mal que possam, algum dia, te assaltar. A oração é uma das asas que nos erguem para o céu; a outra é a fé. Com uma asa só, não se pode voar: a fé sem a oração é tão vã quanto a oração sem a fé. Mas, se tua fé é frágil demais, é bom clamar: "Senhor, dai-me a fé!" É muito raro essa oração não ser atendida. O grão de mostarda, como disse o Senhor, torna-se uma grande árvore. Quem quer receber sol e ar, abre as janelas. Seria ridículo ficar por trás das cortinas fechadas e queixar-se: "Não há luz; não há nem um pouco de ar!" Essa imagem mostra o papel da oração: o poder de Deus e a sua graça estão sempre e em toda parte ao alcance de cada um de nós; porém, só podemos receber a nossa parte se a desejamos e se agimos conforme esse desejo. Sem a oração, não esperes encontrar o que procuras A oração é o início e o fundamento de todo esforço para Deus. É ela que faz brilhar o primeiro raio de luz, que te faz sentir antecipadamente o gosto do que procuras, e que desperta o desejo de progredir. A oração é, segundo São João Clímaco, o fundamento do mundo. Um outro santo comparou o universo a um globo, que deve a sua estabilidade à Igreja que ali está implantada; mas a própria Igreja é sustentada pela oração.

A oração é uma troca e um encontro entre a humanidade e Deus. É a ponte pela qual o homem passa para além do seu "eu" carnal e de suas tentações; e acede ao verdadeiro "eu" espiritual e à liberdade. Ela é a muralha contra todas as desordens, a arma contra a dúvida; acaba com a tristeza e contém a ira. A oração é um alimento para a alma e uma luz para o espírito; consegue para nos, já neste mundo, uma parte da alegria que virá. Para aquele que ora verdadeiramente, a oração é a sentença, o tribunal, o trono de Juiz; antecipa o julgamento final para agora, para o momento presente, no fundo do coração. A oração e a vigilância são a mesma e única coisa, pois é em companhia da oração que deves ficar à porta do teu coração. Olhos bem abertos percebem imediatamente a menor modificação que se produza em seu campo de visão; assim acontece com o coração que ora sem cessar.

Na aranha se encontra outro exemplo: ela fica no meio da teia, ouve a menor mosca que venha prender-se nela, e mata-a. Assim também, a oração deve ficar, como sentinela, no meio do teu coração: ao menor estremecimento que revele a presença de um inimigo, ela o mata. Abandonar a oração, é desertar do posto quando se está de guarda. A porta fica, então, aberta às hordas devastadoras, e os tesouros que se acumularam são entregues à pilhagem. Os ladrões não precisam de muito tempo para fazer o seu trabalho: a ira, por exemplo, pode destruir tudo num instante.

A oração — II

O que precede esclarece que, quando os Padres falam de oração, não estão se referindo a orações ocasionais, nem às orações da manhã e da noite, nem das que se fazem antes das refeições; para eles, oração é sinônimo de oração perpétua; de vida de oração. Tomaram ao pé da letra a ordem "... orai sem cessar" (1 Ts 5:17). Compreendida desse modo, a oração é a ciência das ciências e a arte das artes. O artista trabalha com argila, tintas, palavras ou sons; na proporção de seu talento, ele lhes confere harmonia e beleza. A matéria com a qual o homem de oração trabalha, é viva, é a própria natureza humana. Por meio da oração, ele a modela, dando-lhe harmonia e beleza. É ele o seu primeiro beneficiário, mas, por seu intermédio, essa transfiguração se estende a muitos outros. O cientista estuda as coisas criadas e as aparências; o homem de oração se eleva até o Criador de todas as coisas. Ele se interessa, não pelo calor, mas pelo Princípio do calor; não pelas funções vitais, mas pela Origem da vida; não pelo seu próprio "eu," mas por Aquele que lhe dá a consciência do seu "eu," pelo seu Criador. O artista e o cientista devem fazer muitos sacrifícios e muitos esforços para chegar à maturidade da sua arte ou de seu saber, e jamais atingem toda a perfeição que ambicionam. Se esperassem sempre a inspiração para se porem a trabalhar, nunca poderiam aprender nem mesmo os rudimentos de sua profissão. É necessária ao violinista uma prática perseverante, para se iniciar nos segredos de seu instrumento tão delicado. Façamos a mesma coisa; quanto mais delicado ainda é o coração humano! "Chegai-vos para Deus e ele se chegará para vós" (Tg 4:8). Cabe a nós, pôr mãos à obra. Se dermos um passo para ele, dará dez para nós — ele que, avistando o filho pródigo, que vinha ainda longe, encheu-se de compaixão, correu e lançou-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos (cf. Lc 15:20).

É preciso, pois, que te decidas, uma vez por todas, a dar os primeiros passos, ainda inseguros, para Deus, se realmente queres aproximar-te dele. Que não te perturbe a falta de jeito, no início do caminho da oração. Não cedas ao respeito humano, à indecisão, aos risos zombeteiros dos demônios que tentam convencer-te de que teu comportamento é ridículo, de que teu disígnio é uma bobagem que não passa de fruto da tua imaginação. Não há nada que o Inimigo tema tanto quanto a oração. Na criança, o desejo de ler aumenta à medida que ela progride no aprendizado da leitura; quando aprendemos uma língua estrangeira, é tanto maior o prazer que sentimos falando-a, quanto melhor a dominamos. O prazer aumenta com o progresso. O progresso vem pela prática. A prática se torna mais fácil com o progresso. O mesmo se pode dizer da oração. Não esperes, pois, nenhuma inspiração extraordinária, para pôr mãos à obra. O homem foi criado para orar, como o foi para falar e para pensar. Mas ele foi mais especialmente criado para orar, pois "Iahweh Deus tomou o homem e o colocou no jardim de Éden para o cultivar e o guardar" (Gn 2:15). E onde encontrarás o jardim de Éden, a não ser em teu coração? Como Adão, deves chorar sobre o Éden perdido pela tua intemperança. Estás vestido de folhas de figueira e com uma túnica de pele (cf. Gn 3:21), que são a tua condição mortal, com suas paixões.

Entre ti e a estreita entrada do atalho que leva à árvore da vida, interpõem-se as tenebrosas chamas dos desejos terrenos; e somente aos que venceram esses desejos é concedido "comer do fruto da árvore que está no paraíso de Deus" (Ap 2:7). Adão infringiu só um mandamento de Deus, e tu, como diz Santo André de Creta, tu os transgrides todos, cada dia e a cada momento. Das profundezas de teu estado de pecado, e de teu endurecimento, tua oração deve elevar-se para ganhar as alturas. Muitas vezes, um criminoso endurecido não tem consciência de sua culpa; é próprio do endurecimento. É esse o teu caso. Mas, que não te assuste o endurecimento do teu coração: a oração o abrandará, pouco a pouco.

O jejum

Um jejum proporcional às tuas forças favorecerá a vigilância espiritual. Não se pode meditar as coisas de Deus com estômago muito cheio, dizem os mestres espirituais. Para um amigo da boa mesa, os segredos menos misteriosos da Santíssima Trindade, se assim se pode dizer, permanecem escondidos. O Cristo nos deu o exemplo com seu longo jejum; quando venceu o demônio, saía de um jejum de quarenta dias. Gostarias de consegui-lo com menor sacrifício? Depois, só depois, "... os anjos de Deus se aproximaram e puseram-se a servi-lo" (Mt 4:11). Para te servir, eles também esperam. O jejum refreia a tagarelice, diz São João Clímaco (Escada, Degrau 14:34). Ele te fará misericordioso e disposto a obedecer; destrói os pensamentos maus e elimina a insensibilidade do coração. Quando o estômago está vazio, o coração é humilde. Quem jejua ora com espírito sóbrio, ao passo que o espírito do intemperante é repleto de imaginações e de pensamentos impuros. O jejum é uma maneira de exprimir o amor e a generosidade; através dele, sacrificam-se os prazeres da terra, para obter as alegrias do céu. Uma parte excessivamente grande de nossos pensamentos é açambarcada pela preocupação com a subsistência e com os prazeres da mesa; gostaríamos de nos libertar dessa preocupação. Assim, o jejum se mostra como uma etapa do caminho da libertação, e um aliado indispensável na luta contra os desejos egoístas.

Ao lado da oração, o jejum é um dos mais preciosos dons concedidos aos homens, caro a todos os que fizeram a experiência. Quando jejuamos, sentimos crescer o nosso reconhecimento para com Deus, que deu ao homem o poder de jejuar. O jejum dá acesso a um mundo de cuja existência mal suspeitas. Todos os pormenores da tua vida, tudo o que se passa em ti e ao teu redor, é visto sob uma nova luz. O tempo que passa será utilizado de um modo novo, rico e fecundo. Durante as vigílias, a modorra e a confusão dos pensamentos dão lugar a uma grande lucidez de espírito; ao invés de nos revoltarmos contra o que nos contraria, nós o aceitamos calmamente, na humildade e na ação de graças; problemas que pareciam graves e complexos, resolvem-se por si mesmos, com a mesma simplicidade do desabrochar da corola de uma flor. A oração, o jejum e as vigílias são a maneira de bater à porta que desejamos ver abrir-se.

Os santos Padres muitas vezes consideraram o jejum uma medida de capacidade: se jejuamos muito, é que amamos muito; e se amamos muito, é que muito nos foi perdoado (cf. Lc 7:47). Aquele que jejua muito, receberá muito. No entanto, os santos Padres recomendam que se jejue com medida: não é preciso impor ao corpo uma fadiga excessiva, pois a própria alma se prejudicaria com isso. Tampouco é preciso começar a jejuar muito de repente; todas as coisas exigem uma adaptação, e cada um deve levar em conta a própria compleição e as próprias ocupações. Evitar alguns tipos de alimentos seria condenável: toda alimentação é um dom de Deus. Contudo, é prudente abster-se dos alimentos que causam moleza ou que só servem para deleitar o gosto: pratos muito condimentados, carnes, álcool, etc... Quanto ao resto, pode-se comer de tudo o que é barato e fácil de encontrar. Para os Padres, jejuar com medida significa, no entanto, fazer uma única refeição por dia, refeição essa suficientemente leve, para evitar a saciedade.

Os momentos de escuridão

Ora o céu está nublado, ora claro; depois se torna novamente chuvoso. Assim é também a natureza humana. É sempre de se esperar que, de quando em quando, as nuvens cubram o sol. Os próprios santos conheceram momentos, dias e semanas de escuridão. Diziam então que "Deus os havia abandonado," para fazê-los tomar verdadeiramente consciência da radical pobreza que vivem quando são entregues assim, a si mesmos, e privados de apoio. São inevitáveis esses momentos de escuridão, em que tudo parece sem sentido, absurdo e vão, em que a gente é importunada pela dúvida e tentações. Mas, até eles podem ser proveitosamente utilizados.

O melhor meio de não se deixar abater durante esses dias sombrios, é seguir o exemplo de Santa Maria do Egito. Durante quarenta e oito anos, ela morou no deserto, para além do Jordão; quando as tentações se abatiam sobre ela, e a lembrança da sua vida de pecado em Alexandria, solicitava que ela renunciasse à permanência voluntária no deserto, lançava-se ao solo, clamava a Deus, pedindo ajuda, e só se levantava quando seu coração voltava a ser humilde. Os primeiros anos foram penosos. Muitas vezes ela teve de ficar nesse estado por longos dias. Mas, após dezessete anos, chegou o tempo do descanso. Em períodos assim, permanece calmo. Não te deixes persuadir a freqüentar mais a vida social, nem a procurar uma diversão. Não tenhas piedade de ti mesmo; procura apenas o conforto de clamar ao Senhor: "Vem livrar-me, ó Deus! Iahweh, vem de pressa em meu socorro!" (Sl 70:2); "... estou fechado e não posso sair" (Sl 88:9), e outros apelos semelhantes. Aliás, só dele poderás esperar ajuda verdadeira. Procurando um conforto aleatório, não vás perder toda a tua colheita. Isola-te do que está ao teu redor. Ergue a cabeça: agora tua paciência e constância são postas à prova. Se suportares essa prova, agradece a Deus, que te deu força. Se sucumbires, levanta-te prontamente, pede perdão, e diz a ti mesmo: "O que tenho, é o que mereço!" Pois a própria queda foi a tua punição. Contaste demais contigo mesmo, e agora vês aonde isso te levou. Fizeste uma experiência: não te esqueças de dar graças.


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