Nossa Senhora de Fátima

Nossa Senhora de Fátima

No dia 5 de maio de 1917, o mundo ainda vivia os horrores da Primeira Guerra Mundial, então o papa Bento XV convidou todos os católicos a se unirem em uma corrente de orações para obter a paz mundial com a intercessão da Virgem Maria. Oito dias depois ela respondeu à humanidade através das aparições em Fátima, Portugal. Foram três humildes pastores, filhos de famílias pobres, simples e profundamente católicas, os mensageiros escolhidos por Nossa Senhora. Lúcia, a mais velha, tinha dez anos, e os primos, Francisco e Jacinta, nove e sete anos respectivamente. Os três eram analfabetos.

Nossa Senhora de Fátima
(Fátima - Portugal)
(1917)


Contexto social

Portugal ocupa cerca de um sexto da grande península ibérica, que partilha com a Espanha. Até a virada do século foi monarquia absoluta e tinha ligações extremamente íntimas e devotas com a Igreja Católica Romana. Algumas fontes históricas dizem que, em certa época, dois de cada nove habitantes eram padres ou membros de ordens religiosas.

Antes de 1900, forças antimonarquistas e anticlericais começaram a ser estimuladas. Nesse ano, essas forças surgiram sob o lema: “República dos Terroristas”. Descrito em cores vivas e citado em documentos contemporâneos, agora obscuros, o grito de união era assegurar que “o último rei fosse estrangulado com as entranhas do último padre”.

O rei Carlos I e seu filho, herdeiro do trono, foram assassinados em 1908 quando as facções revolucionárias extremistas organizaram-se para realizar a “reforma”. O rei seguinte, Manuel I, sabiamente fugiu para a Inglaterra em 1910, e foi proclamada uma república revolucionária. A nova república era chefiada por uma composição de democratas, socialistas, livre-pensadores, marxistas e ateus. Para instituir a “reforma”, as facções se desentenderam e os novos líderes utilizaram táticas conhecidas de crueldade e pavor.

Eles consideravam o trono, a nobreza e a igreja como um complexo de instituições irracionais. Foi bastante fácil exterminar a linhagem da família real e abolir os títulos de nobreza, e abrir novas universidades livres em Lisboa e no Porto, para ensinar o socialismo e o ateísmo.

Mas esses eram assuntos ideológicos, em vez de práticos. Assim, os líderes da nova república logo se envolveram em território desconhecido, os graves problemas das classes operárias, com muita gente que trabalhara para a nobreza ou a Igreja e agora estava desempregada. O sistema econômico anterior desmoronou.

Embora as facções se desentendessem, em um assunto todas estavam unidas.

Um dos primeiros atos da nova república, em 1910, foi expulsar as ordens religiosas e confiscar suas propriedades. Essa questão se prolongou, pois os religiosos naturalmente resistiram.

Entre 1911 e 1916, pelo menos 17 mil padres, monges e freiras foram assassinados isoladamente e em grupos. De vez em quando, as entranhas e as cabeças decapitadas das vítimas eram levadas em desfiles pelas ruas para impressionar os religiosos restantes.

Essa situação caótica caracterizou Portugal até 1917. Todas as igrejas foram fechadas ou destruídas. Ninguém ousava se reunir para a missa ou mesmo ser visto rezando o terço. O pavor imperava, e a religião era considerada morta. Nesse ínterim, em 1914, em outra parte da Europa, teve início a Grande Guerra, o primeiro dos grandes apocalipses modernos.

A Guerra consumia as resistências de todos os contendores. Uma guerra brutal, diferente de todas as anteriores. Dezenas de milhões de homens passaram pelo campo de batalha, um imenso campo de batalha que cobria quase toda a Europa, os mares e, pela primeira vez, o ar. Há nomes de locais que não mais se apagarão da memória dos homens: Verdun (400.000 mortos, 700 a 800.000 feridos); La Somme (400.000 baixas para os aliados); Jutlândia, a grande batalha naval onde a Inglaterra perdeu 7.000 homens e 160.000 toneladas de material e a Alemanha, 2.800 homens e 60.000 toneladas; Caporetto (600.000 baixas italianas). Marcos do imenso holocausto que terminaria com dez milhões de mortos militares, treze milhões de mortos civis, vinte milhões de feridos, dos quais sete milhões de feridos ficaram para sempre inválidos. E enquanto os canhões da Guerra Mundial iam pouco a pouco emudecendo, uma nova ameaça, mais pavorosa, se avizinhava.

Na Rússia, a agitação e a revolta, que tinham marcado, desde o início, o reinado do czar Nicolau II, atingiram proporções assustadoras com a entrada do país na guerra, para a qual não estava preparado. Em março de 1917, estalou a revolução que ia preparar a Rússia para o golpe de estado bolchevista. Greves nas fábricas, iniciadas sob os mais variados pretextos, em breve degeneraram em combates de rua e em atos de sabotagem. Na confusão que se gerou, agitadores disfarçados de militares ocuparam pontos estratégicos da capital, saquearam os comissariados da Polícia e massacraram os agentes que se mantiveram fiéis aos chefes, por seu turno surpresos e indecisos. O Governo demitiu-se e assumiu o poder um Governo Provisório, do qual fazia parte, como ministro da Justiça, o socialista Kerensky, e, a par dele, um órgão político nitidamente revolucionário, o Soviete dos Operários e Soldados, que tinha por função vigiar os atos desse mesmo Governo e substituí-lo, se necessário. O imperador abdicou a 22 de março e, com a família imperial, iniciou o caminho do martírio, que iria terminar a 29 de julho de 1918, em Ekaterinburgo, na Sibéria, onde, numa casa isolada e no maior segredo, foram assassinados a tiro e à baioneta e os seus corpos despedaçados e destruídos por meio de ácido sulfúrico e pelo fogo. Nesse dia, Lenine era já senhor absoluto da Rússia, elevado ao poder pela Revolução de outubro de 1917.

Em Portugal, a desordem política dos últimos decênios da Monarquia alastrara com a implantação da República, e o novo regime, logo à nascença, afirmara-se nitidamente anti-religioso. Já em 1910, o Dr. Afonso Costa, ministro da Justiça, declarara que em duas gerações acabaria a Religião em Portugal, e o Dr. Manuel de Arriaga, futuro presidente da República, nomeado apressadamente reitor da Universidade de Coimbra, proclamou, na Sala dos Capelos, perante os professores despojados das suas insígnias, que continuariam a obra sem Deus nem rei.

Logo a 8 de outubro, três dias depois da revolução republicana, entravam de novo em vigor antigas leis do Marquês de Pombal que expulsavam a Companhia de Jesus, e a de 1834, que extinguia os conventos, não podendo os religiosos viver em comunidade. Os padres jesuítas foram presos, enviados para o Forte de Caxias, onde o próprio ministro da Justiça os interrogava, e finalmente expulsos do país em condições ignominiosas. O Bispo do Porto, D. Antonio Barroso, missionário excelso, foi exilado. Por todo o país se sucederam as perseguições à hierarquia e aos católicos, com a complacência dos responsáveis, sob a égide da Franco-Maçonaria, da Carbonária e da tristemente célebre Formiga Branca, “corte arruaceira do afonsismo, aquela que mais havia de minar o edifício republicano”, como escreveu o almirante Machado dos Santos, um dos principais fundadores da República. Ele próprio, no auge da desordem política do regime, viria a ser assassinado, na noite vermelha de 19 de outubro de 1921, com outros dois chefes do 5 de outubro: Antonio Granjo, presidente do Conselho, e Carlos da Maia.

Os ecos do drama que Portugal vivia quase não atingiam os pequenos povoados perdidos nos montes ou no fundo dos vales, como o de Aljustrel, pertencente à freguesia de Fátima, do conselho de Vila Nova de Ourém, lugarejo encravado nos contrafortes da serra de Aire.

Em Aljustrel, em 1917, as casas e seus moradores eram simples e modestos.

Pastorear rebanhos e agricultar as terras constituíam a ocupação exclusiva daquela gente. “Vivia-se na terra a fé simples dos Mandamentos e a Igreja alevantava-se como o coração e o centro de toda a povoação” (Pe. Fernando Leite).

Ali, em duas casas térreas, separadas uma da outra por poucas dezenas de metros, viviam duas famílias ligadas por estreito parentesco. Numa habitava Antonio dos Santos, com sua mulher, Maria Rosa, e seis filhos, um rapaz e cinco meninas. Na outra, Manuel Pedro Marto, casado com Olímpia de Jesus, irmã de Antonio dos Santos. A senhora Olímpia era já viúva, com dois filhos, quando casou com o “Ti” Marto, em 1897; dele teve mais sete filhos.

Ambas as famílias, dentro da modéstia dos costumes locais, eram suficientemente remediadas, vivendo do cultivo de campos próprios e dos rebanhos que apascentavam. Lúcia, a filha mais nova do casal Santos, nascida a 22 de março de 1907, e seus primos Francisco, nascido a 11 de junho de 1908, e Jacinta, nascida a 11 de março de 1910, também os mais novos da família Marto, eram os guardadores dos rebanhos paternos.

As três crianças costumavam apascentar as suas ovelhas em propriedades da família. Um dia, pela primavera de 1916, tiveram de se abrigar de uma chuva passageira, numa pequena caverna a que chamavam “loca do Cabeço”. Aí continuaram a brincar pelo dia afora, até que sentiram um vento forte sacudir as árvores e, ao levantarem os olhos, vêem encaminhar-se para elas “um jovem dos seus 14 ou 15 anos, mais branco que se fora de neve” – como o descreveu Lúcia, que narrou assim a aparição:

“Estávamos surpreendidos e meio absortos e não dizíamos palavra. Ao chegar junto de nós, disse: ‘Não temais! Sou o Anjo da Paz. Orai comigo (...). Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão para os que não crêem, não adoram, não esperam e não Vos amam.’ Depois de repetir isto três vezes, ergueu-se e disse: ‘Orai assim. Os Corações de Jesus e Maria estão atentos à voz das vossas súplicas’. E desapareceu.”

“Passado bastante tempo, em um dia de verão (...) brincávamos em cima de um poço que tinham meus pais no quintal (...). De repente, vimos junto de nós a mesma figura (...) e diz ‘Que fazeis? Orai! Orai muito! (...) Oferecei constantemente ao Altíssimo orações e sacrifícios.’ Como nos havemos de sacrificar? – perguntei. ‘De tudo que puderdes oferecei um sacrifício de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores. Atraí assim sobre a vossa pátria a paz. Eu sou o Anjo da sua guarda, o Anjo de Portugal. Sobretudo aceitai e suportai com submissão o sofrimento que o Senhor vos enviar.’ Estas palavras do Anjo gravaram-se no nosso espírito como uma luz que nos fazia compreender quem era Deus, como nos amava e queria ser amado (...).”

“A terceira aparição parece-me que devia ter sido em outubro (1916), ou fins de setembro (...). Fomos pastorear os nossos rebanhos para uma propriedade de meus pais (...). Logo que aí chegamos, de joelhos, com os rostos em terra, começamos a repetir a oração do Anjo (...) quando vemos que sobre nós brilha uma luz desconhecida. Erguemo-nos para ver o que se passava. E vemos o Anjo tendo na mão esquerda o cálice sobre o qual está suspensa uma hóstia da qual caem algumas gotas de sangue dentro do cálice, ajoelha junto de nós e faz-nos repetir três vezes: ‘Santíssima Trindade, Pai, Filho, Espírito Santo, adoro-Vos profundamente e ofereço-Vos o Preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os santuários da Terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos do Seu Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-Vos a conversão dos pobres pecadores.’ Depois levantou-se (...) dá-me a Sagrada Hóstia a mim e o sangue do cálice dividiu-o pela Jacinta e o Francisco (...).”

Nossa Senhora de Fatima Portugal
Treze de maio de 1917. Os pastorinhos levam os seus rebanhos para a Cova da Iria. De súbito, vêem um relâmpago e logo outro, quando já se preparavam para regressar a suas casas. E apareceu-lhes Nossa Senhora, “tão linda no rosto como não tinha visto senhora nenhuma”, dirá Lúcia, mais tarde, ao seu pároco.

“- Não tenhais medo, Eu não vos faço mal.

- Donde é Vossemecê?

- Sou do Céu.

- E que é que Vossemecê me quer?

- Vim para vos pedir que venhais aqui seis meses seguidos no dia 13 a esta mesma hora. Depois direi quem sou e o que quero. (...) Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?

- Sim, queremos.

- Ides, pois, ter muito que sofrer, mas a graça de Deus será o vosso conforto.

Então, por um impulso íntimo (...) caímos de joelhos e repetimos intimamente: - Ó Santíssima Trindade, eu Vos adoro. Meu Deus, meu Deus, eu Vos amo no Santíssimo Sacramento.

Passados os primeiros momentos, Nossa Senhora acrescentou:

- Rezem o terço todos os dias para alcançarem a paz para o mundo e o fim da guerra.

Em seguida, começou a elevar-se serenamente, subindo em direção ao nascente (...)” (Lúcia.)

Nesse mesmo dia e à mesma hora, em Roma, era sagrado Bispo, por Bento XV, Eugênio Pacelli, o futuro Papa Pio XII.

Tão impressionadas ficaram com a aparição, que as crianças combinam não contar a ninguém o que tinham visto e ouvido. Mas, chegadas à aldeia, os sete anos de Jacinta não resistem e, correndo para a mãe, exclama:

- Vi hoje Nossa Senhora na Cova da Iria! E contou-lhe quanto vira e ouvira.

A Senhora Olímpia não tomou a sério a revelação da filha, embora confirmada pelo Francisco, e a notícia, em ar de brincadeira, não demorou a correr por toda a aldeia. A mãe de Lúcia, porém, não suportou que se brincasse, como supunha, com assunto tão sério e, indignada com o que pensava ser mentira das crianças, quis obrigar, em vão, sua filha a desdizer-se, ameaçando-a e batendo-lhe. Começava assim o longo calvário dos três pastores. O povo ria-se deles, os pais e irmãos ralhavam-lhes e batiam-lhes, só o pai de Jacinta e de Francisco se recusava a acreditar que tudo fosse invenção.

A 13 de junho, meia centena de pessoas decide acompanhar as crianças. Nada viram, mas os pastorinhos de novo receberam a visita da Senhora. Recomendou-lhes que voltassem daí a um mês, que aprendessem a ler, e anunciou-lhes que Jacinta e Francisco iriam em breve para o céu.

- Fico cá sozinha? – disse Lúcia, com tristeza.

- Não, filha. Tu sofres muito? Não desanimes. O Meu Coração Imaculado será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá até Deus.

As pobres crianças regressaram da Cova da Iria para enfrentar novas provações.

Lúcia é a mais mortificada pela mãe e pelas irmãs. É submetida a um primeiro interrogatório pelo pároco de Fátima, a que respondeu o menos possível. Começa, depois, a deixar-se vencer pelo desânimo e quase desiste de comparecer ao encontro de 13 de julho. São os primos que a animam, e vai. Nesse dia, mais de 2000 pessoas acompanham os videntes. E seria nessa terceira aparição que a Virgem Santa lhes comunicaria o Segredo. Lúcia o escreveria mais tarde, “obtida licença do Céu e por pura obediência”: “O segredo consta de três coisas distintas (...). A primeira foi a vista do inferno (...). A Virgem abriu as mãos como nos dois meses passados. O feixe de luz reflexa pareceu penetrar a terra e nós vimos como que um grande mar de fogo e nele mergulhados os demônios e as almas, como brasas transparentes e negras ou bronzeadas, com forma humana, as quais flutuavam no incêndio levadas pelas chamas que delas saíam juntamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados (...) entre gritos e gemidos de dor e desespero (...). Assustados e como que a pedir socorro, levantamos a vista para Nossa Senhora que nos disse com bondade e tristeza:

- Vistes o inferno para onde vão as almas dos pobres pecadores. Para os salvar, Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao Meu Imaculado Coração. Se fizerem o que eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz! A guerra vai acabar, mas se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI começará outra pior.

Quando virdes uma noite alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal, que Deus vos dá de que vai punir o mundo dos seus crimes por meio da guerra, da fome e da perseguição à Igreja e ao Santo Padre. Para a impedir, peço a consagração da Rússia a Meu Imaculado Coração e a Comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem o meu pedido, a Rússia se converterá e terão paz. Se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja: os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas. Por fim, o Meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-Me-á a Rússia, que se converterá, e será dado ao mundo algum tempo de paz. Em Portugal conservar-se-á sempre a Fé; ... etc. (terceira parte do segredo, ainda não revelada).

Lúcia julgou ver “o grande sinal” na extraordinária aurora boreal da noite de 25 para 26 de janeiro de 1938 e redobrou de esforços, cujos ecos chegaram até Roma, para que se realizasse quanto lhe fora pedido pela Virgem. O início da guerra, para ela, situa-se em maio de 1938, portanto ainda no pontificado de Pio XI, com a anexação da Áustria pela Alemanha, seguida em outubro pela ocupação do país dos Sudetas.

A notícia de que a Virgem confiara às três crianças um segredo que elas por nada revelavam avolumou o interesse do povo pelos acontecimentos e chamou a atenção das autoridades eclesiásticas e civis. O pároco de Fátima, Pe. Marques Ferreira, que já uma vez conversara com Lúcia sobre os acontecimentos, volta a interrogá-la, prudentemente, acabando por afirmar: “Não sei o que dizer nem que fazer a tudo isto.” O administrador do conselho de Vila Nova de Ourém, o latoeiro Artur de Oliveira Santos, maçom, livre-pensador, e irredutivelmente anti-clerical, que no registro civil pusera às filhas os nomes de Democracia e República, intervém, por seu turno, convocando as crianças e os pais para a administração, a fim de serem interrogados. O pai dos dois mais novos recusa-se a levar os filhos, mas Lúcia vai. O interrogatório é duro, mas ela nada revela, mesmo sob a ameaça de morte. O “Ti” Marto, pai da Jacinta e do Francisco, foi, das pessoas mais chegadas às crianças, quem menos as fez sofrer. É ele quem, logo após a primeira Aparição, interroga calmamente os que discutiam o acontecimento: “Se os cachopos viram uma mulher vestida de branco, quem poderia ser senão Nossa Senhora?” Os restantes, parentes, amigos ou vizinhos, mesmo quando as não hostilizavam (e, nesse campo, a mãe da Lúcia foi a mais adversa), torturavam-nas com perguntas sobre perguntas, procurando por todos os meios arrancar-lhes o segredo. Um dos primeiros testemunhos de estranhos, de simpatia e carinho para com os videntes, deve-se ao Dr. Carlos de Azevedo Mendes, que em 7 de setembro os visitou e os descreveu depois em carta à sua noiva. A sua vida iria ficar para sempre ligada à Fátima.

Poucas semanas mais tarde, outro inquiridor, imparcial mas compassivo, o Rev. Dr. Manuel Nunes Formigão, registraria, sob o pseudônimo de Visconde de Montelo, as primeiras declarações pormenorizadas das crianças que interessam para a História.

No dia 13 de agosto, uma multidão de 15 a 18 mil pessoas comprimia-se na Cova da Iria. A ação da imprensa anti-clerical, que multiplicara, nas semanas anteriores, os seus ataques, contribuíra, afinal, para a divulgação dos acontecimentos por todo o país. Mas o administrador do conselho, em nome do livrepensamento, é que não podia permitir que a “comédia” continuasse... Vai a Fátima de manhã cedo, tenta uma vez mais demover as crianças, faz serem interrogadas, de novo, pelo pároco e, finalmente, convence-as a subir para o seu carro, a pretexto de que ele mesmo as iria levar à Cova da Iria, e rapta-as. O destino era a administração do conselho e a cadeia de Vila Nova de Ourém. Afirmara-lhes que não voltariam para suas casas enquanto não fizessem o que se lhes mandava. No dia seguinte, o administrador decidiu seguir outro caminho e ofereceu, àquelas crianças de sete a dez anos, vários objetos de ouro, um relógio, duas ou três correntes e algumas moedas que faziam tilintar sobre a escrivaninha, em troca da almejada confissão. Nem perante “aquela riqueza”; nem por bem nem por mal, que à tentativa de suborno se seguiram de novo as ameaças. Depois de um segundo e igualmente ineficaz interrogatório, são levadas para a cadeia pública com a promessa de mais tarde irem buscar para as queimarem vivas. Os presos tiveram compaixão delas. Procuraram distraí-las, especialmente à Jacinta, que chorava, pois queria voltar a ver os pais antes de morrer. Dançam com ela ao colo; por fim, a pedido das crianças, ajoelham todos e rezam com elas. Passado algum tempo, vêm buscá-las. O “latoeiro” faz mais uma tentativa, sem êxito, grita que preparem o azeite a ferver para as queimar, e fecha as crianças numa sala. Volta, pouco depois, para buscar Jacinta: “Diz o segredo ou serás a primeira a morrer queimada!” Leva-a e volta em seguida para levar Francisco: “Aquela já está frita; agora tu, diz o segredo!”

E a criança parte preparada para o martírio. Depois Lúcia, a mesma cena, e por fim o encontro dos três, a alegria pelo encontro inesperado, a certeza de que nenhum dissera o que a Senhora mandara calar e, finalmente, a liberdade, na manhã do dia 15.

Os videntes faltaram ao encontro do dia 13, mas a Virgem visitou-os a 19, desta vez nos Valinhos; de novo pediu que continuassem a rezar o terço todos os dias, confirmou a promessa feita no mês anterior de um milagre no dia 13 de outubro, que Lúcia lhe pedira para que os outros acreditassem.

A 13 de setembro, os videntes receberam a quinta visita de Nossa Senhora. Nesse dia, a grande multidão afirma ter visto sinais extraordinários no céu, coincidindo com o momento da aparição. Escreveu uma testemunha ocular: “Ao meio-dia em ponto, o sol começou a perder o brilho... A atmosfera tomou uma cor amarelada... Não houve quem não notasse o fato, que desde maio precedente se repetia sempre no dia 13 de cada mês à mesma hora” (citada em Nossa Senhora de Fátima, por Luís Gonzaga da Fonseca, S.J.). Ainda uma vez, a Virgem Maria insistiu no seu pedido de orações, especialmente o rosário, para alcançar o fim da guerra, e confirmou de novo a promessa de um milagre para o mês seguinte.

A publicidade à volta dos acontecimentos aumentava diariamente, graças sem dúvida ao número cada vez maior de pessoas que já tinham estado na Cova da Iria mas também, e muito, devido à campanha desenvolvida pela imprensa anti-clerical.

As três crianças eram quotidianamente assediadas com perguntas e interrogatórios, mais ou menos formais. O povo das cercanias andava exaltado, na expectativa do prometido milagre, e não faltava, de novo, quem ameaçasse as crianças com a morte se nada acontecesse no dia 13 de outubro. No dia 12, a mãe de Lúcia propõe à filha que vão se confessar, pois que, se teriam de morrer no dia seguinte, deveriam estar preparadas. A filha procura sossegá-la, reafirmando-lhe a certeza de que a Senhora faria o que prometera. E no dia seguinte, pelas onze horas e meia, mais de 70.000 pessoas aguardam na Cova da Iria, sob uma chuva persistente, que transformara o local num autêntico lamaçal, que o poder do Céu se manifeste. Lúcia começa a rezar o terço. A multidão acompanha-a.

Ao meio-dia exato, Lúcia exclama:

- Lá vem Ela!

Os assistentes vêem apenas formar-se em redor dos videntes e elevar-se depois, no ar, uma pequena nuvem branca, como se fosse de incenso.

- Que é que Vossemecê me quer?

- Quero dizer-te que façam aqui uma capela em minha honra, que sou a Senhora do Rosário, que continuem sempre a rezar o terço todos os dias. A guerra vai acabar e os militares voltarão em breve para suas casas. (...) Não ofendam mais a Deus Nosso Senhor, que já está muito ofendido. (...) Que os homens se arrependam dos seus pecados, que mudem de vida e se tornem bons.

Abrindo as mãos – continua a narração de Lúcia – fez com que elas refletissem no Sol, e, enquanto se elevava, continuava o reflexo da sua própria luz a projetar-se no sol. (...) Foi ao ver isto que exclamei: - Olhem para o sol!”

Chegara o grande momento do milagre! O Dr. Almeida Garrett narra o que presenciou nas seguintes palavras: “O sol, momentos antes, tinha rompido a densa camada de nuvens (...). Pude vê-lo semelhante a um disco de bordo nítido e aresta viva, luminosa e reluzente, mas sem magoar. (...) Também se não confundia com o sol encarado através do nevoeiro (...). Maravilhoso é que, durante longo tempo, se pudesse fitar o astro (...) sem uma dor nos olhos (...). Este fenômeno (...) devia ter durado cerca de dez minutos. (...) Este disco nacarado tinha a vertigem do movimento. (...) Girava sobre si mesmo numa velocidade arrebatada. De repente, ouve-se (...) um grito de angústia de todo aquele povo. O sol, conservando a celeridade da sua rotação, destaca-se do firmamento e, sanguíneo, avança sobre a terra (...). São segundos de impressão terrífica...”

Enquanto a multidão assistia ao prodígio, entre jubilosa e aterrada, às três crianças eram dadas ainda as visões da Sagrada Família, de Cristo abençoando o povo e de novo a da Virgem. Sobre o milagre do sol, escreveu o Bispo de Leiria, mais tarde, em Carta Pastoral, estas palavras serenas e definitivas: “Este fenômeno que nenhum observatório astronômico registrou e, portanto, não foi natural, presenciaram-no pessoas de todas as categorias e classes sociais, crentes e descrentes, jornalistas dos principais diários portugueses e até indivíduos a quilômetros de distância, o que destrói toda a explicação de ilusão coletiva.”

Os incrédulos explicaram que tudo isso era um caso de “histeria em massa”. Mas quando depois se soube que o fenômeno fôra visto e registrado por grupos independentes localizados até cinqüenta quilômetros longe de Fátima, os críticos incrédulos se calaram.

Passado o grande momento do dia 13 de outubro, completara-se o ciclo das aparições aos três pastores. Nossa Senhora transmitira-lhes a sua mensagem de oração e penitência. Transformara aquelas três almas inocentes em intermediárias entre o Céu e a Terra. Em breve levaria os dois mais novos, como prometera, para junto de si. Lúcia ficaria ainda na Terra, para poder testemunhar.

Francisco seria o primeiro a partir. Esta criança pouco expansiva, a quem a Virgem destinara o papel mais modesto das aparições, pois sempre só lhe fora dado ver e não ouvir, ficara profundamente impressionado quando soube o que o Anjo lhes dissera ao administrar a Comunhão: “Tomai e bebei o Corpo e o Sangue de Jesus, horrivelmente ultrajado pelo homens ingratos. Reparai os seus crimes e consolai o vosso Deus.” Consolar o Senhor Deus foi a missão a que mais devotamente Francisco se entregou. Como o Anjo que apareceu a Jesus na Agonia do Horto das Oliveiras, assim Francisco quis acompanhar o Senhor abandonado pelos homens.

Para tanto, procurava, por todos os meios, ficar sozinho, evitando mesmo a companhia de Jacinta e Lúcia. Para melhor poder rezar e pensar, como dizia.

Sempre que podia, refugiava-se na igreja paroquial, a rezar junto de Jesus Sacramentado. Lúcia conta-nos, numa das suas narrações, este fato bem significativo do espírito contemplativo de Francisco: andavam os três a guardar os rebanhos quando, a certa altura, ele se afastou para longe. Jacinta, passado algum tempo, preocupada com a sua ausência, correu a procurá-lo, mas em vão. Lúcia busca-o depois e finalmente encontra-o prostrado no chão atrás de um muro. Tocalhe num ombro, sacode-o, chama-o em voz alta:

“- Francisco!

Ergueu-se então como quem acorda de um profundo sono.

- Estás a rezar?

- Estou. Comecei a rezar as orações do Anjo e depois fiquei a pensar.

- Não ouviste a Jacinta, que andou por aqui a chamar por ti?

- Não; não ouvi nada.

- Vamos ter com ela, que está a chorar por ti, por te julgar perdido.

Fomos mas, momentos depois, voltou dizendo que queria estar sozinho, para oferecer aquele sacrifício pelos pecadores.”

A epidemia broncopneumônica atinge-o, e à Jacinta, no outono de 1918.

Francisco melhora, para recair gravemente no dia 23 de dezembro. A criança, no auge da doença, encontrava agora maiores oportunidades de sacrifício.

“- Francisco, sofres muito?

- Sim, sofro, Mas sofro tudo por amor de Nosso Senhor e de Nossa Senhora. Queria sofrer mais, mas não posso.”

E rezava sempre, até que, já próximo do fim, nem forças tinha para rezar um terço completo. No dia 2 de abril, disse ao pai que queria comungar. Sacramentou-o o Pe. Bento Moreira, coadjutor de Fátima, e comungou, pela primeira e última vez, a Sagrada Hóstia no dia 3. Jacinta faz-lhe as suas últimas recomendações: “Dá muitas saudades minhas a Nosso Senhor e Nossa Senhora e diz-lhes que sofro tudo quanto eles quiserem para converter os pecadores e reparar o Imaculado Coração de Maria.”

E ´Lúcia recomenda-lhe:

“-Não te esqueças de pedir lá muito pelos pecadores e pelo Santo Padre, por mim e pela Jacinta.

- Sim, peço. Mas olha: essas coisas pede-as antes à Jacinta, que eu tenho medo de me esquecer quando vir Nosso Senhor; e depois antes O quero consolar.”

No dia 4 de abril de 1919, pelas 10 horas da manhã “deu um ar de riso e ficou-se, que nunca mais respirou”, segundo as palavras de sua mãe no inquérito paroquial.

Seu pai descreveu assim o momento da morte: “Morreu a sorrir-se.” Tinha 11 anos incompletos.

Se Francisco tomara para si o papel de consolador do Senhor Jesus, Jacinta decidira colocar sobre os seus ombros o peso da penitência pela conversão dos pecadores. A visão do inferno gravara-se profundamente na sua alma. E igualmente se gravaram as palavras de Nossa Senhora: para salvar as almas, Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao Meu Imaculado Coração.

Todo o sentido da vida de Jacinta, depois desse dia e até a morte, será orientado por esses dois motivos: a conversão dos pecadores e a devoção ao Coração de Maria. Como o irmão, como Lúcia, ela não deixará perder-se a menor ocasião de sacrifício por esses grandes objetivos. Desde o passarem semanas sem beber no monte, sob o calor do Verão, até cingirem o corpo com cordas, tudo as crianças fazem, cada um com a sua intenção particular, de acordo com os pontos da mensagem celeste que mais tocou os seus corações.

Dos três, foi ela “a mais enriquecida dos dons da graça”, como afirmou o Bispo de Leiria, D. João Pereira Venâncio, no período que mediou entre as aparições e a sua morte. Durante a doença, a Virgem visitou-a várias vezes, confortando e fortalecendo os seus frágeis anos, auxiliando-a a subir o pesado calvário que lhe reservara.

Pouco depois da morte de Francisco, adoeceu de novo com uma pleurisia e foi internada, sem grande êxito, no hospital de Vila Nova de Ourém, no Verão de 1918.

Regressou a casa com uma ferida aberta no peito, que exigia dolorosos curativos diários, a que a criança se sujeitava sem um queixume. Uma infecção progressiva veio acrescentar novas dores ao seu sofrimento, mas ainda assim encontrava forças para renovados sacrifícios: “Tenho muita sede – confidenciava a Lúcia – mas não quero beber. Ofereço a Jesus pelos pecadores.”

Um dia, revelou à prima nova visita da Virgem: “Nossa Senhora disse-me que vou para Lisboa, para outro hospital; que não te torno a ver nem a meus pais; ...que depois de sofrer muito morro sozinha...; mas que não tenha medo, porque me vai lá Ela buscar para o Céu...” E na verdade, em janeiro de 1920, foi a Fátima o Dr. Eurico Lisboa, que, encontrando Jacinta naquele estado, insistiu em que a família a deixasse ir para Lisboa, onde esperava salvá-la operando-a. A criança despede-se da prima a chorar, e diz-lhe: “Nunca mais nos tornamos a ver!... Reza muito por mim até que eu vá para o céu; depois lá eu peço muito por ti. Não digas nunca o segredo a ninguém, ainda que te matem. Ama muito a Jesus e ao Imaculado Coração de Maria e faz muitos sacrifícios pelos pecadores.”

Em Lisboa, o médico esperava conseguir recolhê-la em casa particular, mas o seu estado era tal que ninguém teve coragem para a receber. Finalmente, conseguiram alojá-la no pobre Orfanato de Nossa Senhora dos Milagres e Jacinta encontrou na Superiora da casa uma protetora maternal, que começou a tratar por “madrinha” e a quem passou a confiar os sentimentos mais íntimos e os favores que continuava a receber do céu, como dantes fazia ao irmão e à prima. A Virgem Maria apareceu-lhe aí algumas vezes e a “madrinha” anotou algumas frases da criança cujo conteúdo e acerto eram muito superiores ao que se poderia esperar da sua idade e quase nenhuma instrução: “Os pecados do mundo são muito grandes. (...) É preciso fazer penitência. (...) Nossa Senhora já não pode suster o braço do seu amado Filho sobre o mundo. (...) Os padres só deviam ocupar-se das coisas da Igreja e das almas. (...) A desobediência dos padres e dos religiosos aos seus superiores e ao Santo Padre ofendem muito a Nosso Senhor. (...) Se os homens soubessem o que é a eternidade, como haviam de fazer tudo para se emendarem! (...) Eu ia com muito gosto para o convento, mas gosto mais ainda de ir para o Céu.”

Finalmente, é internada no Hospital de D. Estefânia, para ser operada. A seus olhos, esta operação não é mais do que nova oportunidade de mortificação, pois, como escreveu Lúcia, “de Lisboa mandou-me ainda dizer que Nossa Senhora já lá a tinha ido ver e lhe tinha dito a hora e o dia em que morreria”. Operaram-na a 10 de fevereiro e, devido a sua extrema fraqueza, não pode ser cloroformizada. Só foi possível fazer anestesia local, para uma operação em que lhe extraíram duas costelas. As dores, sobretudo ao fazer os curativos, eram enormes, mas a pequena mártir ainda encontrava forças na sua alma para animar os que a assistiam e tratavam, dizendo: “Paciência, todos temos de sofrer para ir para o céu.”

Durou dez dias esta agonia. A 20 de fevereiro de 1920, pelas 22h30min, Jacinta Marto, de nove anos de idade, expirava sem um queixume.

Os corpos de Francisco e Jacinta foram exumados em 1935. Cal virgem havia sido derramada sobre seus corpos devido ao perigo de contágio da gripe. Os restos mortais de Francisco não estavam intactos, mas o corpo de Jacinta estava perfeito e, em 1950, continuava intacto.

Em Fátima, ficou Lúcia só, sem poder voltar a gozar a alegria da companhia dos dois primos, únicos participantes do segredo da Senhora. Ficou só, a suportar sozinha todas as visitas, todos os interrogatórios, malévolos ou bem intencionados, mas sempre dolorosos. Até que, um dia, Lúcia desapareceu de Fátima. O fato deu origem às mais diversas interpretações e o administrador do conselho voltou a intervir. Fez comparecer a Sra. Maria Rosa na administração e inquiriu-a sobre o paradeiro da filha. A resposta não o satisfez, mas resolveu não insistir: “A minha filha está onde ela quer e onde eu quero. Não tenho que dar mais satisfações!”

Lúcia entrara, a 17 de maio de 1921, no Asilo de Vilar, no Porto, dirigido pelas religiosas de Santa Doroteia. Partiu depois para Tui, em Espanha, e entrou no noviciado do Instituto da Beata Paula Frassinetti (Irmãs Doroteias), a 2 de outubro de 1926. Ao receber o hábito tomou o nome de Maria (Lúcia) das Dores.

Desejosa de maior isolamento, a 25 de março de 1948, deu entrada no Carmelo de Coimbra, aí fazendo a sua profissão solene a 31 de maio de 1949, com o nome de Irmã Maria do Coração Imaculado.

Mas enquanto Jacinta e Francisco entregavam as suas almas puras nas mãos da Virgem Santíssima; enquanto Lúcia se remetia ao recolhimento sereno do convento; enquanto o povo, de perto e de longe, ia em romagem ao local sagrado das aparições; enquanto a capela pedida por Maria era construída, as forças anticatólicas não desarmavam nem se davam por vencidas. A perseguição contra o clero (especialmente o de Fátima e arredores) foi violentamente intensificada a partir de 1918. Ordens terminantes foram comunicadas aos párocos e autoridades civis para não permitirem a ida de peregrinos à Cova da Iria, e o próprio Governo interveio diretamente em 1920, 1922, 1923 e 1924, com medidas destinadas a impedir as peregrinações de maio a outubro. O ato culminante da perseguição fanática foi, porém, a dinamitação da capela, na noite de 6 de março de 1922. Foram colocadas cinco bombas, uma das quais junto da raiz da carrasqueira das aparições. Esta foi a única que não explodiu.

A notícia do sacrilégio correu célere por todo o país e logo se organizaram peregrinações de desagravo, apesar das ameaças governamentais de maior severidade na repressão. A 13 de março, oito dias depois do atentado, 10.000 pessoas incorporaram-se numa peregrinação, e a 13 de maio estiveram presentes cerca de 60.000, vindas de todo o país e “representando todas as classes e profissões da sociedade portuguesa”, como acentua o Pe. Luís Gonzaga da Fonseca.

Nada podia deter a realidade de Fátima, e as autoridades eclesiásticas, apesar de toda a prudente reserva que desde o primeiro momento vinham mostrando, por vezes aumentando até os sofrimentos dos três videntes, foram sendo convencidas da verdade das aparições, tantas as provas que se iam acumulando. Fátima dependia, em 1917, do Patriarcado de Lisboa e, a 3 de novembro, o Arcebispado de Mitilene, governador do patriarcado durante o desterro do Cardeal, ordenava ao Pe.

Marques Ferreira que realizasse um rigoroso inquérito sobre os fatos ocorridos. Em fevereiro de 1918, o Pe. Cruz, que, por destino providencial, conhecera os pastorinhos, pelo menos Lúcia, muito antes das aparições, torna-se, em Lisboa, na câmara patriarcal, o primeiro defensor caloroso de Fátima, no campo eclesiástico, e a sua intervenção deve ter contribuído fortemente para o abrandamento da posição de prudente expectativa das autoridades religiosas.

Em outubro de 1921, o Bispo de Leiria concedia autorização para se celebrar uma missa campal na Cova da Iria. Em 1922, instaurou-se o processo canônico, cuja comissão deu o seu trabalho por concluído a 14 de abril de 1929 e entregou o seu relatório ao Bispo D. José Alves Correia da Silva. A 13 de outubro de 1930, era finalmente promulgada, diante de 100.000 peregrinos, a Carta Pastoral sobre o culto de Nossa Senhora de Fátima, de S. Exa. Revma. O Bispo de Leiria, na qual solenemente se declaravam dignas da fé as Aparições da Cova da Iria desde 13 de maio a outubro de 1917 e permitia o culto de Nossa Senhora de Fátima. Treze anos tinham passado sobre a última aparição.

A força espiritual de Fátima vencera todas as resistências. Terminada, em Maio de 1928, a oposição das autoridades civis, o número de peregrinos aumentou vertiginosamente. Logo em 1928, segundo cálculos publicados na imprensa, Fátima deve ter recebido, ao longo do ano, a visita de cerca de um milhão de peregrinos.

Na peregrinação de 13 de maio de 1938, calcula-se que tenham estado presentes 400.000 a 500.000 pessoas, enquanto na do encerramento do Ano Santo de 1950 (a 13 de outubro de 1951) os peregrinos devem ter sido cerca de um milhão.

Quanto à mensagem secreta que ainda está para ser revelada, Lúcia anotou-a, com instruções para só ser revelada em 1960.
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